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matérias: 70 anos Marvin Gaye
Quinta-feira, 9 de Abril de 2009 (17:31:53)



Ouve-se sua influência por toda parte ainda hoje, sobretudo no mundo do R&B contemporâneo. Novas gerações de fãs surgiram nos vinte e cinco anos que se seguiram à morte do cantor e compositor. A música de Marvin Gaye é um marco da cultura do século XX.








MARVIN GAYE:

ontem, hoje e sempre



zeca azevedo


1 de abril de 2009


Há vinte e cinco anos Marvin Gaye foi assassinado pelo pai, Marvin Pentz Gay, Sr.. A tragédia aconteceu no dia primeiro de abril de 1984. Na época, Marvin filho estava de volta à casa dos pais havia seis meses em estado mental deplorável, resultado do abuso de drogas, sobretudo cocaína. Marvin era um animal acuado, não saía do próprio quarto, vivia uma fantasia persecutória terrível e interminável, só falava em morte e suicídio.


Colocava os sapatos nos pés errados, não tinha controle sobre as funções mais básicas da própria vida, era um farrapo humano, um vestígio do homem que um ano e um mês antes, ereto e elegantemente vestido, recebeu dois prêmios Grammy em uma cerimônia realizada em Los Angeles. Quatro dias antes de morrer, Marvin tentou o suicídio de forma patética ao pular de um carro a sessenta quilômetros por hora. Sofreu escoriações leves, mas as feridas psicológicas que o levaram a agir desse modo eram profundas.


No dia do assassinato, Marvin, Sr., 69 anos, encharcado de vodka, andava furioso pela casa há horas à procura de uma carta qualquer. O velho foi ter com a esposa, Alberta Gay, que estava no quarto do filho. Marvin, Sr. entrou aos gritos no recinto, insultando Alberta; Marvin, Jr., se interpôs entre o velho furioso e a mãe. Atormentado e igualmente furioso, o filho agarrou o pai e o jogou violentamente para fora do quarto. O velho bateu em retirada.


Depois de um curto período de tempo, Marvin Pentz Gay, Sr. voltou com um revólver calibre 38 (que tinha recebido de presente do filho quatro meses antes) e deu dois tiros no astro da Motown. Marvin Pentz Gay, Jr. morreu ali, na hora, um dia antes de completar 45 anos de vida.


Terminava de forma brutal uma história marcada desde o início pela brutalidade: Marvin, Sr., pastor pentecostal que fundou a própria igreja, homem polêmico, abertamente efeminado, que apreciava usar perucas e roupas femininas – usava até as calcinhas da esposa (com o conhecimento dela) -, espancava muito os filhos, especialmente Marvin, Jr.. Segundo relatos, Marvin, Sr., parecia sentir prazer ao espancar Marvin, Jr.. Os abusos cometidos pelo pai provocaram uma fratura psíquica que acompanhou o cantor e compositor por toda a vida adulta.


Marvin Jr. travou uma luta constante contra a depressão profunda, contra a dependência química e contra pulsões que tendiam à perversão e que faziam com que ele se sentisse parecido com o pai, fato que alimentava sentimento de culpa e desejo de autopunição. A batalha de Marvin Gaye contra o que David Ritz, biógrafo e amigo do cantor, chamava de "alma dividida" só terminou com a morte brusca e violenta.


A sentença que Marvin Pentz Gay, Sr. recebeu por matar o filho de forma fria e pensada? Cinco anos em liberdade condicional. O juiz encarregado do caso aceitou a tese da defesa de que o pai teria sido atacado pelo filho "louco e chapado". Além disso, Marvin Pentz Gay, Sr. teve a responsabilidade sobre seu ato criminoso questionada por conta de um pequeno tumor cerebral que foi retirado dele um mês depois do assassinato. O pai e assassino de um dos maiores artistas do século XX morreu em 1998, aos 84 anos, de pneumonia.


2 de abril de 2009


Hoje Marvin completaria 70 anos de vida


Pra ser bem sincero, não sei como seria a carreira de Marvin se ele não tivesse sido assassinado em 1984. A voz dele começava a dar sinais de cansaço já no início dos anos 80. Talvez perdesse o viço. Talvez se tornasse mais um desses artistas populares que vivem das glórias do passado. Jamais saberemos. As faixas que ele estava preparando no período em que foi assassinado indicam que o cantor se embrenhava cada vez mais na senda “erótica” aberta nos anos 80 por “Sexual Healing”. Uma das canções que estava gravando, “Sanctified Lady”, tinha como título original “Sanctified Pussy”... Outra faixa desta mesma safra, “Masochistic Beauty”, revelava as fantasias masoquistas do cantor. Essas e outras faixas em estava trabalhando quando assassinado foram terminadas por colaboradores do cantor e editadas no álbum póstumo Dream of a Lifetime.


Ouve-se a influência de Marvin Gaye por toda parte nos dias de hoje, sobretudo no mundo do R&B contemporâneo. Novas gerações de fãs surgiram nos vinte e cinco anos que se seguiram à morte do cantor e compositor. A música de Marvin Gaye continua a embalar festas, romances, dores de amores e sonhos no mundo inteiro.


Infelizmente, o braço brasileiro da gravadora Universal, atual dona do catálogo da Motown, continua a sonegar os álbuns de carreira de Marvin Gaye aos fãs de soul aqui da terrinha.  Até hoje não tivemos edição nacional em CD de álbuns como The Soulful Moods of Marvin Gaye, That Stubborn Kind of Fella, Together (gravado em parceria com Mary Wells), How Sweet It It To Be Loved By You, Moods of Marvin Gaye, Take Two (gravado em dupla com Kim Weston), United (maravilhoso álbum gravado em parceria com Tammi Terrell), M.P.G., That’s The Way Love Is, Trouble Man, Marvin Gaye Live! (1974), I Want You, Here My Dear e In Our Lifetime, todos excelentes e todos fundamentais para a compreensão adequada do legado artístico e da dimensão humana do Marvin.


A Universal prefere ignorar estes e outros discos do cantor e insiste em reeditar o What's Going On uma dezena de vezes e em entupir o mercado de coletâneas em CD do Marvin (lançou agora há pouco mais uma compilação, um CD triplo chamado Marvin Gaye 50, que é ótima para novatos, mas não traz nada de novo para fãs mais dedicados do “trouble man”). Dá pra entender porque a maioria das pessoas tem uma visão unidimensional sobre o artista e a música que produziu. O legado de Marvin transcende largamente o repertório do What’s Going On e dos “greatest hits” redundantes que encontramos a varejo por aí.


De 1973 a 2009, sem escalas


A música de Marvin Gaye está na minha vida há mais de trinta e cinco anos. O álbum de Marvin que mais ouço hoje? Let's Get It On. Falar sobre este disco é chover no molhado, todo mundo sabe que é sublime. É, talvez, o disco mais conhecido e comentado do Marvin depois do What’s Going On. Mas tem dois álbuns excelentes, excepcionais mesmo, e que pouca gente menciona: M.P.G. e That's The Way Love Is. Este último tem faixas maravilhosas como “Gonna Give Her All the Love I've Got”, “Yesterday”, “That's the Way Love Is”, “How Can I Forget”, “Abraham, Martin & John” e “Gonna Keep on Tryin' Till I Win Your Love”.


Outro álbum que é muito bonito e que é muito apreciado pelos fãs do cantor é o I Want You, de 1976. O fato curioso é que ele é quase um álbum do Leon Ware. Quer dizer, na verdade ele era um álbum do Leon Ware preparado para a Motown. O Leon cantava em todas as faixas do disco. Quando Berry Gordy ouviu o álbum pronto, pensou que seria o produto perfeito para trazer Marvin de volta ao estúdio e às paradas.


Depois de lançar Let's Get It On e o disco de duetos com a Diana Ross em 1973, Marvin não tinha feito mais nada em estúdio, fato que estava deixando o pessoal da Motown à beira de muitos ataque de nervos. Gordy propôs ao Leon Ware e ao T-Boy Ross, co-produtor do I Want You e irmão da Diana Ross, que o disco fosse entregue ao Marvin. T-Boy não gostou da idéia, mas Leon aceitou. Tudo o que Marvin tinha que fazer era colocar a voz nas bases já prontas. Marvin ouviu a faixa-título do álbum, gostou da música urdida por Leon Ware e topou participar do projeto.


O pessoal da Motown, de forma inocente, acreditou que teria produto novo do Marvin Gaye em breve para colocar no mercado. O problema é que para gravar os vocais em bases instrumentais já prontas o Marvin levou treze meses... No estúdio, largava tudo e ia jogar basquete com quem estivesse por perto - assim acabavam quase todas as sessões de gravação, algumas antes mesmo de terem começado. Isso quando o cantor comparecia às gravações: muitas vezes o pessoal de estúdio ficava esperando Marvin por horas e horas à toa, pois ao final o cara não dava o ar de sua graça. T-Boy Ross não gostou nada do ritmo lento, "emaconhado", e da desorganização do Marvin e brigou com cantor. Foi expulso do projeto.


Leon Ware, esperto, aguentou tudo e manteve-se firme em seu posto. Marvin mexeu em uma ou outra letra de algumas canções, mas no geral o I Want You, o álbum, é cria do Leon Ware. O LP foi um grande sucesso, vendeu mais de um milhão de cópias só nos EUA. À época, não foi tão bem recebido pela crítica, mas hoje ninguém é capaz de questionar a qualidade deste que é um dos discos mais suaves e sedutores do Marvin Gaye. E é o álbum que tem a capa mais bonita de toda a discografia do Marvin, talvez uma das mais bonitas de todos os tempos.


A ilustração da capa do disco, hoje célebre, traz um belíssimo desenho do artista Ernie Barnes que captura como poucas imagens toda a sensualidade e a energia da pista de dança de uma festa exclusivamente negra. Da embalagem ao conteúdo, tudo é bonito em I Want You.


30 de outubro de 1968


Nem só de álbuns é feito o acervo musical de Marvin Gaye. Os singles foram fundamentais para o sucesso do cantor, sobretudo nos anos 60, quando os 45 rotações eram o formato dominante no mercado de R&B norte-americano. De todos os singles que Marvin lançou em vida, um se destaca com grande vantagem em relação aos demais: o de “I Heard it Through the Grapevine”. Lançado em 30 de outubro de 1968 nos EUA, este compacto transformou Marvin Gaye em um superastro internacional. 


As primeiras notas da canção, insinuantes, trazem à mente a imagem de uma serpente que se aproxima, rasteira, sutil e mortal, da vítima desprevenida (o ouvinte). O efeito de percussão reforça a imagem ao remeter ao som de um chocalho de cascavel. Quando Marvin Gaye começa a cantar, é tarde demais: a serpente deu o bote. Quando o refrão se apresenta pela primeira vez, o veneno já foi completamente inoculado e o sistema nervoso do ouvinte já está à mercê de I Heard it Through the Grapevine.


Composta por Norman Whitfield e Barrett Strong, produzida pelo primeiro, “I Heard it Through the Grapevine” marcou de forma profunda a carreira de todos os envolvidos. Para Marvin Gaye, a gravação foi a oportunidade de, naquele momento de sua carreira, ousar no repertório, deixando de lado canções mais suaves para penetrar em território emocional e psicológico mais sombrio; para Whitfield, foi a vez de afirmar-se como o mais inovador dos produtores do staff da Motown no período de lançamento do single (1968); para a gravadora independente de Detroit, foi a chance de bater mais um recorde fonográfico – o compacto de “I Heard it Through the Grapevine” ultrapassou a marca de três milhões de cópias vendidas só nos EUA e foi, por quase duas décadas, o mais vendido da história da Motown.


Para além desse acachapante sucesso comercial, que se repetiu nos anos 80 quando a gravação virou trilha de comercial de jeans, “I Heard it Through the Grapevine” é um triunfo estético. É uma canção de amor traído. O narrador ouve à boca miúda (esse é o significado da expressão que dá título à canção) que a amada tem outro homem. A letra da canção registra o momento em que o homem conta para a amada que acredita que está sendo traído por ela. Será que é um diálogo direto, presencial, olhos nos olhos, ou é uma conversa imaginada por ele em seus delírios vingativos? Tudo o que ouvimos na canção leva a crer que a primeira opção é a correta, mas não custa reservar a segunda opção, que é interessante.


O que torna a gravação de “I Heard it Through the Grapevine” rica do ponto de vista de significados é a interpretação de Marvin Gaye, a um só tempo controlada e emotiva. A voz do cantor registra de forma elegante e contida a dor do personagem da canção, sem apelar para recursos melodramáticos. A inteligência da leitura que Marvin fez de “I Heard it Through the Grapevine” confere um grau de realismo à gravação que talvez ajude a explicar o fascínio que ela exerce sobre os ouvintes mais de quarenta anos depois do seu lançamento.


Quarenta anos, vinte e cinco anos, setenta anos, o tempo não para e nem importa quando o assunto é a beleza da música de Marvin Gaye. Percebida por muitos como mero produto da cultura industrial à época em que foi concebida, a obra deste músico excepcional é reconhecida hoje como sendo um marco da cultura do século XX. No século XXI, as melhores gravações de Marvin Gaye vão continuar a ignorar qualquer tipo de erosão, a inspirar milhões de pessoas e a voar alto, bem alto no céu tranquilo.



zeca azevedo, 43, é o maior conhecedor de soul music do lado Sul do país - e não come mosca.



 
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