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entrevistas: Dead Fish Contra Todos
Terça-feira, 10 de Fevereiro de 2009 (22:12:24)


Enfim o Dead Fish lança Contra Todos, que representa uma nova fase em sua trajetória, agora com apenas uma guitarra, com as letras mais diretas e o som mais rápido. São 14 canções que mostram o grupo maduro e cada vez mais metropolitano, já que adotou São Paulo como base. Um Dead Fish talvez nunca visto (ouvido) antes. Por Márcio Sno






Entrevista

DEAD FISH



Márcio Sno, texto e entrevista
Maurício Santana, fotos



Era começo dos anos noventa. O rock pulsava nas veias na mesma intensidade que os hormônios pulavam feitos loucos na cabeça de uns rapazes que resolveram montar uma banda na capital do Espírito Santo. Até aí nada demais, pois o que mais surgia naquela época era banda de rock. De hardcore então, nem se fala. Naqueles tempos era quase obrigatório cantar em inglês – a desculpa mais usada era “que soava melhor”. Assim era o Dead Fish.

A banda é uma das pouquíssimas sobreviventes desse cenário, resistindo N vezes de virar mais um número nas estatísticas e hoje, quase 18 anos depois, é um dos mais importantes nomes do hardcore nacional, responsável por carregar milhares de pessoas ao mais de 1500 shows realizados em mais de 120 cidades que passaram. E tudo isso não se deve apenas por ter assinado com uma gravadora grande. Antes disso, já tinha um público fiel que acompanhava os meninos quando ainda eram independentes.

O Dead Fish tem uma particularidade: já vendeu mais de 350 mil discos sem ter a preocupação de cantar histórias de amores mal resolvidos ou dor de chifre. Mesmo com a maior exposição que conquistaram pós-Deck Disc, não mudaram o discurso de suas mensagens sempre recheadas de protestos. Talvez por isso que não se pode esperar a banda em programas dominicais ou mesmo na trilha sonora de Malhação. Este é o preço (ou a vantagem) de não ser igual.

Enfim o Dead Fish lança Contra Todos, que representa uma nova fase na trajetória da banda, agora com apenas uma guitarra, com as letras mais diretas e o som mais rápido. “Que tenha pressa quem quiser me alcançar”, alertam em uma das músicas. São 14 canções que mostram a banda madura e cada vez mais metropolitana, já que adotou São Paulo como base. Um Dead Fish talvez nunca visto (ouvido) antes.

O disco marca também a última participação de Nô, o baterista e espinha-dorsal do Dead Fish que recentemente deixou a banda – substituído por Marcão, que também toca na lendária Ação Direta e no recém-nascido Musica Diablo.

Ano de 2009. Com mais de três décadas de vida os meninos mostram que de “dead” não têm nada e que estão dispostos a ficar por muito tempo na estrada ocupando aquilo que chamam de “o melhor trabalho do mundo”. Para contar um pouquinho desse percurso  e para falar um pouco de cada faixa do disco novo, conversei com Rodrigo Lima, o vocalista, um dos melhores exemplos do que não seguir.



O disco anterior soou meio frio dentro da discografia do Dead Fish. O que Um Homem Só não tinha que o Contra Todos tem?

Talvez seja mais espontâneo, no Um homem só testamos algumas coisas que ao meu ver não deram muito certo, mas dentro da banda este pensamento nunca foi unânime. Fizemos uma experiência pra música no penúltimo e neste deixamos o barco correr.


Tanto o som quanto as letras do Dead Fish estão mais simples e diretas. O que explica essa postura, digamos, mais punk?

Quando nos tornamos um quarteto, acho que muitos dos pensamentos internos se tornaram mais simples mesmo e isso refletiu no som.
 

A capa do novo disco faz lembrar muito a do primeiro, Sirva-se. A idéia era essa mesma de voltar ao começo?

Não era esta a idéia, nunca quisemos nos repetir nem voltar em momentos já vividos, mas se você acha, pra mim ótimo. O Sirva-se é um CD com uma energia muito boa, tudo estava começando era tudo novidade pra gente.
 

Esse já é considerado o melhor disco do Dead Fish. Enfim, encontraram a batida perfeita antes do D2?

Hehe, não mesmo o D2 está muito a frente na busca. Ainda temos muitas coisas pra evoluirmos, não chegamos nem perto ainda de várias bandas que admiramos, mas eu concordo contigo que é o nosso melhor trampo. E digo isso porque normalmente ouço uma ou duas vezes o trabalho depois de pronto, neste consigo me empolgar várias vezes ao dia ouvindo.
 

Qual o balanço que fazem de três discos pela Deck e as produções feitas pelo Rafael Ramos?

Foi uma ótima experiência, tivemos durante estes quase 5 anos bons aprendizados no quesito produção, aprendemos bastante como funciona uma música com editora, vimos muita tecnologia que não estaria ao nosso alcance no independente, vimos também a política do "mainstream" mais internamente e aprendemos que coisa boa e ruim tem em todos os lugares no meio cultural, e que o Brasil quase nunca é, vanguarda ou massa, um país sério.
 

Nos vídeos disponibilizados no Youtube, é mostrada uma bandeira do Flamengo quando você grava os vocais. Isso é um tipo de amuleto ou simpatia? A propósito, Obina ainda é seu rei?

Obina será sempre nosso rei, meu caro, com quantos quilos ele estiver, hehehe.
O CD foi gravado no fim do Campeonato Brasileiro, eu acompanhava os jogos pelo rádio e TV e torcia muito pro Mengão ir pra Libertadores. Acabou não rolando por falta de competência do próprio time, fazer o quê, Copa do Brasil tá aí pra isso. Era engraçado também porque o Aly [Alyand Mielle, baixista] é vascaíno e ele, de leve, viu o time dele cair e fingiu que não estava abalado. Mas eu sei que ele ficou mal, porque ele me xingava todo dia ao me ver gravando com a bandeira do Flamengo na técnica.
 

Há a possibilidade de o Contra Todos ter uma versão em vinil. Como é lançar um disco pela primeira vez nesse formato? Isso tem a ver com a onda nostálgica ou é pelo tesão mesmo?

Tem mais de 6 anos que desejamos ter um lançamento do Dead Fish em vinil, chegamos a negociar com umas pessoas na Europa, o que acabou não dando certo. Hoje temos um contato na Alemanha engatilhado pra lançar o Sonho médio [segundo disco] e a Deck mostra sinais aí que pode comprar a única fábrica do Brasil [localizada em Belford Roxo, a Poly Som desligou as máquinas e fechou as portas no ano passado], o que nos dá muita esperança de ver este trampo em vinil, vamos vendo.
 

Para viver de música do Brasil é necessário abrir mão de alguns “conceitos underground”, como ter que assinar com uma grande gravadora, aparecer na mídia etc. Hoje em dia ainda há espaço/sentido para ser “fiel ao underground”?

Acho que não é mais tão necessário assinar com alguém ou ter um lobby fazendo algo por você. As coisas mudaram muito em 5 anos, acho que o Cansei de Ser Sexy, se não me engano, nem precisou de uma gravadora grande pra aparecer e nem mais um monte de coisas por aí. Confesso que não vislumbraria ter conseguido viver de música se não tivéssemos assinado com a Deck há 5 anos, mas hoje é diferente. E mais, aquela era nossa única e última chance de tentar, estávamos todos seguindo outros caminhos. Eu hoje custo em entender o que é underground, independente, vanguarda, mainstream, as coisas parecem misturadas com toda esta crise da indústria fonográfica e com a revolução da internet. O que hoje é cool, amanhã pode ser a coisa mais massificada do mundo, o que é revolucionário hoje, em 2 minutos pode se tornar muito conservador.  Portanto o que sobrou foram as idéias, de se autogestionar, de fazer algo diferente pro mundo e não só esteticamente ou musicalmente, talvez seja esta a "fidelidade ao underground" que sinceramente não levo tão a sério, como não levo nada do que leio e vejo hoje em dia como revolucionário ou cool.


Ao contrário das mensagens contidas nas letras, os shows do DF garantem momentos de muita diversão. Quem nunca viu um show de vocês deve achar que deve ser algo muito sério e panfletário. Que diabos de entidade que você recebe quando pisa no palco?

Talvez este seja o maior mistério que temos, alguém de fora da banda poderia tentar explicar isso porque eu não consigo. Estou muito envolvido há muito tempo, apenas subo lá e dou meu melhor do meu jeito, gosto que seja intenso e divertido mesmo sendo uma banda politizada nas letras.
 

A parte da geração mais recente do DF tem o hábito de idolatrar a banda. Num show de vocês presenciei um grupo de jovens falando coisas do tipo: “já falei com o Alyand”, “já peguei a baqueta”, “já toquei na mão do Rodrigo”. Como lidar com esse tipo de endeusamento?

Isso é besteira, acaba quando a gente conversa com os guris. Nossa postura nunca foi esta, queremos gente que acompanhe a banda com senso crítico, com independência bastante pra saber se aquilo é legal pra ela ou não, acho que muitos garotos passaram pelos shows do Dead Fish e viram que era assim, alguns continuam ali outros se foram e isso que é legal, não os prendemos com dogmas ou sendo sérios demais com o que dizemos, se eles quiserem partir que partam, se quiserem ficar, que fiquem.


Na cobertura do festival Ponto CE feita pelo programa de TV Radiola, o pessoal do Bad Religion interrompeu a entrevista para ver o show de vocês. Como é essa inversão de papéis com quem influenciou o som do DF?

Cara, o Bad Religion foi a banda que nos fez ter vontade de ter a nossa banda. Tivemos a oportunidade de trocar umas palavras com os caras anos antes, foi legal demais, pudemos ver que são humanos como todos nós, muito diferentes entre si e velhos, hehehe, como nós, cheios de reclamações parecidas com as nossas. Acredito que pra qualquer banda ser visto pela pessoa que te influenciou cause um certo medo misturado com orgulho e uma imensa satisfação também. Mas o mais assustador é você entrar numa van e se sentar entre o Bill Stevenson [Descendents, Black Flag] e o Karl Alvarez [Descendents, All], ambos caras que já foram de bandas que ouvi a minha vida inteira, e eles te darem um tapinha nas costas e dizerem "cara, foi um ótimo o show de vocês", ai é até perigoso você passar a se achar demais.
 

Em 2007 vocês tocaram pela primeira vez na Europa. Como é mostrar o som em um país diferente? Como é público de vocês lá?

Pra mim foi normal, tirando os dois primeiros shows que significavam a inauguração da parada toda, no resto da tour eu até fazia piada com os caras do público, ou xingava em alemão ou tcheco. Como todo brasileiro, sempre dava uma zuada nos caras em português e nêgo não entendia nada e virava piada interna. Nosso tour mannager é alemão filho de portugueses e sempre dizia quando estava legal ou quando estava ruim, num dado momento comecei a fazer perguntas sobre política e dei algumas bolas fora, os caras lá ainda se sentem meio culpados pela cagada que seus avós fizeram, eu acho tudo uma grande propaganda pra manterem eles com baixa autoestima. As pessoas são maravilhosas e interessadas na Alemanha, achei o país muito, muito justo, as coisas não são caras como em outros países da Europa, é uma bela democracia, mas os garotos nem sempre relaxam. Fizemos alguns amigos, e como nosso baixista é preto, sempre chamávamos ele de "black bastard" e os caras ficavam escandalizados com isso, pra eles era a coisa mais extrema a ser feita ou dita, eles não podiam dizer também, nem com a maior das intimidades, saca? É mais ou menos assim que funciona. Nosso público foi bem pequeno, mas sempre muito interessado, só cola quem quer ver a banda, então é quase sempre jogo ganho. No fim da tour tinham uns caras cantando os sons nos dois últimos shows, isso foi muito legal pra gente.
 

Pretendem fazer algo maior como já fez o Jason, Confronto e Questions?

Sim, este ano ainda se possível. Queremos ir a Argentina, Uruguai e Chile que já estamos pra ir há pelo menos sete anos.
 

Os outros meninos da banda têm outras bandas/projetos. O Alyand com o 88 Não, o Phil (guitarrista) com o Zander e o Marcão com o Ação Direta e o Musica Diablo. Vale a pena escutar?

Sim, vale muito, são bandas boas ao meu ver.
 

Como foi a troca da “Vitória Poluída” por “SP Chaos”? A troca foi justa ou já bateu o arrependimento?


É diferente tudo. Uma cidade não tem nada a ver com a outra. Em Vitória tudo é menor, as pessoas se conhecem e se esbarram todo o tempo, aqui é um mar de gente, uma cidade menos pessoalista (sic) mas não menos acolhedora pra quem pode pagar. Eu gosto daqui, foi a cidade que me deu a oportunidade de viver de música, de conhecer gente louca e cheia de boas idéias. Eu me canso muitas vezes, como todo mundo aqui, mas aí tenho Vitória e posso ir lá ver os velhos amigos, cair no mar e voltar correndo. Por hora quero estar aqui ainda.




FAIXA-A-FAIXA

Por Rodrigo Lima, vocal



Não: Ela dá a tônica do que a gente quer passar (apesar de não ser um disco conceitual). É uma música que conta os 18 anos da banda, com muita rapidez, com muita urgência. É como se fosse a “Urgência” de Zero e Um. “Eu já sou independente o bastante para saber pra onde eu vou, não fode, não enche o saco”. É uma música rápida, que tem 50 segundos, com guitarras muito rápidas, bem hardcore velho, que a gente fazia.


Autonomia: Pra mim é a música mais legal do disco até agora, pois estou ouvindo o CD há 3 meses, e conseguindo ouvir há 3 meses, pra mim é a música mais legal, que traz mais elementos novos musicalmente. O cara que fez a capa, o Flávio Bá, falou que o título Contra Todos se completa com o Um homem só: “um homem só contra todos” e acho que “Autonomia” é o desdobramento de Um homem só. Por exemplo: na sua vida você passa por fases, então você tem a fase que você sente muito num vale. Essa fase do Dead Fish é a caminho do pico. A gente ainda não viu o horizonte mas a gente sabe que a gente pode chegar lá. Eu acho que a letra de “Autonomia” tem essa positividade desse CD, o Contra Todos.


Venceremos: É um hino de positividade num mundo acabando. Também uma música rápida, com elementos que eu acho que o Phillipe sacou muito bem instrumentalmente, o Alyand também. A gente antes pôde fazer um trabalho legal. É um hardcore rápido que tem um jeito de ser meio tradicional, quadrado, mas não é, se as pessoas prestarem atenção vão ver que não é. Sou eu ainda surpreso como a minha banda tocar as pessoas. A gente já passou por tantas coisas e eu tô dizendo pros caras “pô, você está vendo o que eu estou vendo?” A molecada ainda acredita em alguma coisa, quer acreditar em alguma coisa. A gente não pode deixar de falar o que temos para falar para eles, enquanto eles estiverem aqui a gente vai falar: “o mundo vai acabar, por que tá uma merda, mas vai acabar do jeito que a gente quer! Vamos morrer fazendo o que a gente quer”.


Quente: Foi um dia de verão no ano passado, exatamente no final de fevereiro, eu estava no Largo da Batata [zona oeste de São Paulo], dentro de um ônibus de ter uns 50 mil graus, indo pra casa do Philippe fazer música. E o ônibus parou e não andou mais e eu fiquei pensando: “caraio, porque não fui a pé, que merda dessa cidade que fica tudo parado, essa bosta dessa temperatura desgraçada”, ficava olhando as pessoas com raiva, olhava as pessoas nos carros e dava vontade de arrancar as pessoas pela janela. E aí surgiram as duas primeiras frases, a música já estava mais ou menos agilizada e eu falei pro Philippe: “cara, queria que fizesse uma música assim, a primeira frase tem que ter ‘meus pés não me conduzem mais pra onde eu quero’”. E a música fala sobre esse clima ridículo que a gente ta vivendo agora. Estava soando em bicas, querendo matar alguém. Por isso a música é mais metal.


Subprodutos: É um hardcore melódico quadrado, tradicional, cheio de arranjos, bem executado, gosto muito. Toda vez que eu ouço ela, eu lembro de NOFX que é uma banda que eu sempre gostei muito, mesmo que seja uma banda que não tenha tido muito prestígio com as “pessoas sérias” do cenário hardcore, é uma banda inteligente pra caralho. A letra surgiu depois que eu estava conversando noutra vez com o Babaloo, um amigo meu de Aracaju, ele nem sabe disso, eu acho. E ele falando [imitando sotaque] “pô, tem umas pessoas aqui que são muito iluminadas, todo mundo é inteligente, todo mundo tem a saída, tudo é extremamente vanguarda”. E eu tentei traçar um paralelo entre a vanguarda, uma elite, e a massa que vai com a onda. E tentar trazer isso para o que eu penso: eu não acredito em nada, nem na vanguarda nem na massa. Nem no burro da esquerda nem no gênio da direita. Acredito em mim e em você produzindo. E eu tentei traçar um paralelo de um povo massificadão e uma elite que acha que é muito inteligente e aí eu faço uma pergunta no final: “qual escolha que você vai fazer? Se portar como um vanguardista, que sempre acha que está à frente do mundo, que está na frente da massa ou se comportar como um cara da massa que vai junto? Qual é a diferença?” Qual a diferença entre massificado e customizado? Qual a diferença de um tênis que vende para um milhão de pessoas e um tênis super especial que você customizou na casa do caralho? Num Empório Armani, na puta que pariu? Você não vai andar de qualquer jeito? O importante é andar. Ficar olhando pra baixo se sentindo menor porque usa um Bamba ou melhor usando um customizado. Por isso que ela ia se chamar “Comendo Cocô”, e é meio desagradável, degustar fezes... Mas é bem ocidental, comer merda e arrotar caviar.


Asfalto: É uma música meio “dibirou” [na linha rap], meio yo. A música ia se chamar “Ausfahrt”, que é saída de carro em alemão. Alemão tem essa coisa: saída de carro é ausfahrt, saída de gente é ausgang... Aí, eu lembro que a piada foi até do Hóspede [guitarrista que gravou os dois últimos álbuns], que saiu da banda inclusive. A gente estava no décimo dia de turnê numa Autoban daquelas, e ele disse “rapaz, essa ausfahrt aí deve ser uma cidade muito grande, hein? Porque tem placa dessa cidade em tudo que é lugar! Que loucura!” Os nêgo tudo rachou de rir. Depois de um tempo eu fui descobrir que tem uma música do No Means No, que fala que a ausfahrt também é uma cidade grande, aí o refrão surgiu primeiro: “Vou retornar daqui, Ausfahrt ficou pra trás, não consigo encontrar, estacionar em ti e rever alguns amigos...”, fala sobre ausfahrt no refrão e fala sobre a nossa vida, eu tenho 36 anos recém-completados [6 de fevereiro] e eu acho que mais da metade da minha vida eu estava em uma estrada e foi a música mais difícil pra eu cantar, pois eu lembrava muito do Nô, foi muito difícil, o cara que esteve comigo desde o primeiro dia e ele não está mais. E eu lembro que muitas vezes eu falhei na hora de cantar, ficava muito enroscado. E eu lembro que na hora que eu cantei, foi com muita raiva. Me perguntaram se era uma música emo, e eu disse: “cara, talvez sim” porque me lembra muito tudo o que eu passei, faz referências, a letra diz várias coisas que aconteceram com a banda, no decorrer dos anos: ficar dentro de uma van, de não conseguir dormir, porque balança. E no meio da música eu coloquei um rap incidental, que eu falo baixinho: “ausfahrt é uma cidade daqui, todos procurando, mas ninguém pode encontrar, se as coisas podem dar certo aqui, porque é que não podem dar por lá?” Fico perguntanto: “porra, eu vivi a vida toda naquela merda daquele Brasil e as coisas não são tão diferentes daqui. Porque aqui dá certo? Não é só porque é um país rico, não deve ser só por isso”.


Contra Todos: É uma música de amor que eu fiz para a minha esposa. Como você disse, igual à música do U2 [em referência a “The Sweetest Thing”, que Bono escreveu pedindo desculpas à esposa], eu compararia mais com uma música do REM, "Everybody Hurts". Essa música eu fiz em alguns minutos, eu morava um apartamento térreo na Consolação [bairro da região central de São Paulo], e eu gosto muito do centro da cidade, só que eu sei que São Paulo é uma cidade cruel, e a minha mulher não tem uma relação boa com a cidade. Ela tem um cotidiano totalmente diferente do meu, ela tem o direito de odiar a cidade. Ela pega o transporte da cidade. Um dia ela acordou cedo para ir trabalhar e voltou meio que desesperada, chorando falando “tem um cara morto na frente de casa! Uma pessoa morta, ainda tá quente, tem uma possa de sangue que saiu da boca dele e ele está morto! E eu entrei para chamar o resgate, porque as pessoas estão pulando por ele, estão apressadas para o trabalho e não conseguem ver que tem uma pessoa morta!” Isso foi na cara da minha casa: um mendigo morto e as pessoas apressadas para o trabalho. Nesse dia, minha mulher disse: “basta! Não suporto mais isso aqui, é o pior lugar do mundo! Um inferno! Quero voltar para o meu interior, a minha Vitória”. E disse: “Vitória tem isso também, só que a gente não vê”. Aqui a cidade é muito cruel, as pessoas são muito indiferentes. Sou eu falando da cidade tentando convencer ela a ficar, falando: “eu sei, a gente mora na merda, mas a merda é tudo!” Eu falo: “você tem todo o direito de ficar puta, de querer ir embora, não tiro a sua razão, mas aqui é que eu quero ficar, é aqui que a gente se sente feliz, aqui que a gente tem nossa vida e independente das pessoas ficarem indiferente, você chamou o resgate!” Eu lembro que o refrão surgiu quando eu tava tocando com o Phillipe, e é muito forte: “somos nós contra todos – dá uma respirada – vamos vencer!” Eu trouxe essa coisa de tentar convencer a minha mulher de ficar nessa merda toda que eu amo tanto e ela odeia tanto, juntamente pra dizer “a gente vai vencer isso, a gente tem capacidade de fazer alguma coisa diferente, em qualquer lugar que a gente esteja e se você for, eu tô perdido, eu vou me perder de novo!” Um título forte, meio politizado numa música de amor. Muito criativo de minha parte, você não acha?
Acho que todo mundo tem uma corda nas costas e com aquele pensamento diário: “lá vou eu empurrar o mundo. Produzir, dar óleo para sustentar a máquina, mas vai”. É a gente para empurrar o mundo, que venha todo mundo. Se eu conseguir empurrar o mundo em meio pentelho pra frente, pode me dar um cinturão, pois eu ganhei.


Shark Attack: Num show que a gente fez em Recife, ficamos hospedados em uma pousada em Olinda, de frente pro mar, e a gente que mora em São Paulo, nunca vê o mar e eu me lembro de eu e o Nô no outro dia de óculos, igual a dois turistas idiotas, eu inclusive de camisa florida, e na frente da pousada, do lado direito, eu olhei e tinha uma placa escrita “shark attack”, se tivesse escrito “ataque de tubarão”, um monte de turista gringo tinha morrido! Aí eu olhei pro Nô e ele disse assim: “e aí, vamos arriscar?” e eu disse: “ah, vai você aí!” Aí surgiu a ideia de fazer uma música em inglês, lembro que a letra surgiu primeiro. A letra é um cara falando: “hoje está um dia bonito” e tinha até uma rima em inglês que não batia, “ocean blue”, que é “blue ocean” aí eu falei “ocean blue”, em referência ao mar azul e tal, que faz muito sentido na música. É o cara falando assim: “estamos aqui em mais um dia ensolarado, água morna e um excelente mar azul, eu tenho a minha prancha e comecei a nadar pela arrebentação, mas alguma coisa me mordeu e levou os meus dois pés”. Aí vem o refrão: shark attack! Shark attack! E eu pensei num turista dinamarquês ou sueco que não entendeu a placa em português e entrou no mar”. A música é for fun mas no final tem a frase “deixe o homem ter o que merece” e aí acaba.


A Dialética: É o meu eterno sentimento, não porque me sinto um cara incapaz, me sinto bastante capaz, mas é um eterno sentimento de que muita gente inteligente é subaproveitada porque tudo nesse país depende de lobby, depende de ser filho do fulano, depende de ser conhecido do cicrano. Eu não tô reclamando, do tipo “não tive oportunidade porque não sou do lobby”, tô dentro do lobby, eu necessariamente estive dentro disso, dentro do mainstream. Talvez tenha sido subaproveitado por ser um cara chato, mal educado, não ser tão rápido... E aí eu falo um pouco disso... A música se chama “A dialética de quem mente mais”, eu acho que nesse país gente muito inteligente fica relegada... É um latinismo, isso rola na Itália, uma herança romana, talvez, passou pra Portugal, passou pra Espanha... Essa idéia de achar que só quem está no nosso entorno é que presta, é a minha gang, é a minha turma. Eu acho que um país não cresce enquanto a nossa gang estiver no poder. Nós somos gente do mundo, nós precisamos melhorar o mundo. E para melhorar o mundo a gente precisa dar ouvido às mais diversas pessoas, mesmo que a gente não as conheça. Eu fico imaginando Michelangelo [artista do Renascimento italiano] tivesse nascido no Brasil (o Pelé foi um cara de sorte). Eu não acredito em genialidade, mas Michelangelo, um puta gênio da arte, se ele fosse da periferia de São Paulo e não fosse de Higienópolis [bairro nobre de São Paulo], um quatrocentão, um cara rico, ele teria morrido aos 20 anos, traficando. É sobre isso que fala: a dialética que é a guerra de classes, em que as pessoas que têm poder, não se ligam nisso. E fazem burramente a política do nepotismo, do apadrinhamento. Tem muita gente talentosa por aí que não têm espaço.

O melhor exemplo do que não seguir: Surgiu primeiro a música. É uma música diferente do que a gente já fez, é mais elaborada. Ela vai mais pro punk-rock melódico do que para pop. Apesar de você achar “Contra Todos” uma música fofa, eu acho que é um punk rock forte, musicalmente falando. Essa é música elaborada e eu lembro que ficava ouvindo com o Phillipe e ele falava “eu não gosto dessa música”, ele sempre implicava comigo. Você não pode se esconder atrás de uma limitação. Aí fiz uma coisa diferente, que não me agradasse tanto e resolvi pensar na minha cidade, na ilha de Vitória, como uma pessoa, como se eu estivesse conversando com ela, escrevendo uma carta. Estou longe, as coisas estão acontecendo assim, e tal, e eu gosto muito de você [a cidade], mas agora não é a minha hora de te encontrar, não é minha hora de te ver, me dá meu tempo.


Descartáveis: Isso vem de Um homem só, da desconstrução humana que precisa ser destruída e pra gente construir algo novo a gente tem que ter um foco nas espécies que estão em nosso entorno. Um grande equívoco achar que o ocidente está no topo do “nós somos foda”, mesmo com todo abuso tecnológico de todas as ciências humanas, a gente não está no topo, a gente está a caminho de um fim trágico. Não vejo a hora de ver esse fim trágico. O refrão é isso: “a humanidade é o produto, sempre atrás de bonificações”. A gente virou o peixinho atrás da isca, a capa do álbum do Nirvana [Nevermind], mas não com um neném, mas uns caras velhos, tatuados e bem nonsense. Tudo está a venda: sexo está a venda, ser bonito está a venda, eu posso ser o cara mas posso comprar a minha beleza. Somos todos descartáveis, uma hora a gente vai ver que tudo que a gente correu atrás, tudo que a gente fez para chegar nisso, o grande ápice ocidental, no último dia da sua vida, vai ser varrido pra debaixo do tapete por essa ilusão.


Tupamaru: Eu pesquisei no Wikipédia, eu sempre estive muito por dentro dos movimentos do Uruguai, do Chile, eu sempre li muito sobre isso, ainda mais porque meu pai era um cara de esquerda e ele sempre me mostrou muitas coisas. E depois eu fui descobrir que é uma tribo de índios, da região do Rio da Prata. E eu tracei um paralelo com terrorismo, porque você vem de uma idéia alternativa, te leva a ser terrorista, no governo passado [dos Estados Unidos]. E sou eu falando pro cara que manda no mundo: “e aí? Você entra como um carro em cima de mim e eu vou devolver”. É um “Senhor, seu troco” com mais coisas para dizer. É falar pro cara: “ninguém aguenta mais”. E eu tracei isso para a minha realidade sul-americana. Não é um afegão, um iraniano falando isso. É um sul-americano. Vou tentar chegar na minha raiz, no cara que chegou primeiro aqui.


Armadilhas Verbais: Eu fiz essa letra pensando nos meninos que estão vindo. Por mais que você faça as coisas, que tenha boa vontade, que tente fazer uma diferença, vai ter sempre a tradição pra te limitar. Vai sempre ter alguém pra dizer: “desculpa, isso está errado” ou “nossa, a sua geração é uma merda”, “porque a miiiinha geração”. É como se fosse um moleque falando assim: “você está achando que tudo que eu faço é uma merda? Tudo que eu penso é uma merda? Foda-se você então! Eu vou fazer, pois foi com você que eu aprendi que eu deveria fazer. De você que eu ou lá atrás. Agora você vem me dizer que o que eu estou fazendo não presta? Vai se foder, morra!” É a música que representa o meu tratamento que fiz com a doutora Cassiane, onde eu consegui as notas mais altas. A “areia” que tem na minha voz não é algo tão natural, tenho isso há 13 anos. Não sou um cara muito afeito a usar drogas, encher o rabo de cana. É estar 13 anos envolvido no cenário hardcore, onde o sistema som é uma bosta e eu tive que suprir isso com meu ar, e isso foi criando uma situação crônica. O Philippe pedia para que eu atingisse umas notas em Um homem só que eu só fui conseguir em “Armadilhas Verbais”.


Piada Liberal: Acho que é a continuação de “Descartáveis” e é uma música que eu acho bastante inovadora no Dead Fish, porque traz um Dead Fish menos melódico e elementos de mais punk-rock velho, Dead Kennedys. O Philippe ouve muita banda de “mat core”, um metal muito bem tocado. No final [faixa escondida], são minhas eternas discussões com Rafael Ramos. Eu não sou um cara muito fácil de dialogar, tenho plena certeza disso, mas eu não sou um cara difícil, tosco... Não, sou super educado, gente fina, cheiroso, bonito... A gente teve num dia, um embate em que eu me opus contra todo mundo, como sempre, e o pessoal falava assim: “cara, você é louco, você não quer saber de música, de racionalidade, só que entrar ali e falar besteira, você precisa mudar”. Foi um diálogo meio doideira, maluco que a gente teve, ele perguntava uma coisa, eu respondia outra e aí ele resolveu não botar na forma racional.


Capa (projeto gráfico): Finalmente a gente conseguiu lançar em digipack, que a gente pediu desde o Zero e Um, mas como não funcionava tanto em megastores, não fizeram. E acho que é um diferencial pro disco. Foi feito pelo Flávio Ba, que eu gosto muito do que ele faz, ele tem um site chamado Anti-Tudo (www.antitudo.com.br). Ele entrou muito na onda do disco, dá pra ver que a arte, ele viajou, ele não se fecho no que ele achou do Contra Todos, ele abriu para a banda e acho que ele conseguiu passar da melhor forma. Tem um encarte do caralho, gosto da bolachinha que é uma serra... Algum disco deve ter isso, mas eu gosto disso. A capa é uma pessoa dizendo assim: “tudo vai ficar bem, tá tudo legal” e vai um “Contra Todos” chapado na cara dela, tipo: “Não, não tá tudo bem”. E atrás é o mesmo cara com uma cordinha nas costas, pra continuar em linha reta.




RESENHA

CONTRA TODOS
(Deck Disc)


Sabe aqueles dias em que você acorda e resolve sair na rua e berrar em praça pública todos os problemas do mundo para quem quiser ouvir? É mais ou menos assim que se pode definir o novo disco do Dead Fish. “Não”, a faixa que abre o CD, é esse grito, que soa como uma espécie de releitura de “independência ou morte”.

Pessimista? Talvez. Porém uma ponta de esperança dá sinal quando tentam apontar nas letras alguns caminhos para tentar mudar os questionamentos das 14 faixas que dão corpo ao disco.

A opção de seguir em quarteto, com uma guitarra apenas, ajudou a dar roupagem crua ao som, que está mais rápido, sem ficar no básico, pelo contrário, acabou ficando mais maduro e com uma cara própria: é melódico, mas também é punk-rock, chegando até soar metalcore, vejam vocês. Tudo isso mantendo mensagens cheias de protestos, mesmo quando se fala de amor, como na faixa-título.

As letras também falam de um Dead Fish que encontrou seu caminho, que pode até andar sozinho. Independente, como preferiu ser. Um paradigma que ao ser quebrado, gerou liberdade. Não entendeu? “Autonomia” e “Armadilhas Verbais” podem ajudar a compreender.

Contra Todos também é um disco autobiográfico, alguns trechos da história da banda podem ser encontrados em “Asfalto” e “Venceremos” dando até a impressão de que tem a ver com as saídas de membros da banda desde o último disco.

Talvez a vivência na metrópole chamada São Paulo fez com que o som e letras da banda ficassem mais diretos, sem meio-termo. Sendo isso ou não, a grande verdade que esse é o melhor disco do Dead Fish, justamente por ser curto e grosso. Simples assim.



http://www.deadfish.com.br
http://www.fotolog.com/deadfishoficial
http://www.myspace.com/deadfishoficial






 
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