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rip: Lux Interior, Cramps
Quinta-feira, 5 de Fevereiro de 2009 (18:23:41)



Minuto de silêncio no underground de todo o planeta. Baixam-se os mais altos topetes billies, põem-se de lado as endiabradas guitarras surf, calam-se os tambores uptempo do drumkit minimal, ensurdecem-se os barulheiros garageiros, entristece-se o punk quebrador de barreiras.








CRAMPS

Mundo do rock perde a singularidade e a visceralidade do vocalista Lux Interior



Texto de Abonico R. Smith
Fotos de Divulgação



Minuto de silêncio no underground de todo o planeta. Baixam-se os mais altos topetes billies, põem-se de lado as endiabradas guitarras surf, calam-se os tambores uptempo do drumkit minimal, ensurdecem-se os barulheiros garageiros, entristece-se o punk quebrador de barreiras. Morreu no último dia 4 de fevereiro um dos grandes heróis da música subterrânea do século 20. Aos 62 anos de idade, Lux Interior não resistiu a problemas cardíacos que o levaram à internação no Glendale Memorial Hospital, na cidade californiana de Glendale.


Ao lado da mulher, a guitarrista Poison Ivy Rorschach, Lux era há mais de trinta anos o vértice central de uma das mais idolatradas bandas formadas durante a blank generation nova-iorquina dos anos 70: o Cramps.


Nascido Erick Lee Purkhisher em outubro de 1946, ele passou sua adolescência venerando-se quadrinhos de terror, filmes trash, literatura pulp, a sensualidade das pin-ups e atrizes de Hollywood, discos-voadores, fetichismo sexual e vertentes musicais como blues e rockabilly. Por causa desta personalidade singularíssima, atravessou incólume os anos do boom da contracultura no território americano. O seu mundo congelou-se em 1965, antes da propagação geral de que as viagens ácidas expandiriam o estado de consciência. Para Erick, diversão era mesmo em estado bruto. Extremista. Inconseqüente. Fantasmagórica. Burlesca.


Encontrou sua alma gêmea, em 1972, pedindo carona em uma estrada da cidade de Sacramento, também na Califórnia. Os muitos interesses e gostos em comum não tardaram a unir o casal perfeito. Foram parar em Nova York três anos depois, justamente quando os porões das quebradas de Manhattan fervilhavam através de uma turma contestadora que era movida a rock´n´roll, insatisfação com o status quo da cultura dominante vigente e uma urgência incrível para expressar suas idéias, pensamentos e sentimentos – mesmo que de forma confusa, trôpega ou mesmo aberradora.


Como Erick e Kristy Wallace foram mesmo feitos um para o outro, consolidaram a união formando uma banda, ele cantando e ela tocando guitarra. Trocaram seus nomes: a expressão Lux Interior veio de uma propaganda de um antigo automóvel enquanto Poison Ivy escolheu seu novo batismo (que remete a uma vilã das histórias clássicas dos quadrinhos do Batman) por causa de uma visão que teve durante um sonho. Então, em 1976, os palcos de muquifos como CBGB´s e Max´s Kansas City passaram a conhecer o Cramps (caimbras, em português), sempre com performances matadoras, com Interior levando em frente a bandeira outrora hasteada pelo mestre Iggy Pop – entenda-se por isso uma figura ensandecida sem parar de se contorcer e se matar da primeira à última música.


Combinação perfeita


Desde o início, sob o comando de Lux e Ivy (baixo e bateria acompanharam uma grande rotatividade de músicos; houve ainda períodos com Kid Congo Powers, ex-Gun Club, e o doidaço Bryan Greogry como o segundo guitarrista), o Cramps cosntruiu uma fusão de blues (bem tosco e visceral, o que viria a ser conhecido hoje em dia como garage), surf music (as linhas de guitarra impressas por Kristy são pura Califórnia early sixties), psicodelia (de uma maneira diferente, com os arranjos soterrados por sujeiras de micorofonias e distorções) e psychobilly (a levada urgente do punk, acompanhada acordes básicos e melodias caipiras do rockabilly). As letras, por sua vez, sempre trafegaram entre temas de terror, seres fantásticos e um certo cotidiano recheado de bizarrices e clichês da ficção classe B.


Já a identidade visual também sempre foi um caso à parte. Como dois personagens saídos de sua própria ficção um tanto quanto fetichista. Saltos altíssimos inclusive para ele, roupas justas de couro e látex contrastando com peças mínimas do vestuário (como minissaias, biquínis e microtangas), maquiagens carregadas, cabelos sempre meticulosamente armados. Nunca isso mudou.


Sempre foi assim desde os primórdios no underground nova-iorquino até o álbum de inéditas, lançado há seis anos (desde então, apesar da escassez das apresentações ao vivo, o casal continuou trabalhando firme no sentido de relançar por conta própria boa parte do catálogo fonográfico do Cramps e ainda documentar a história do grupo através de uma coletânea dupla cheia de raridades de demos e live versions e comentários autobiográficos).


Registro de destruição


Para muitos fãs, a grande obra-prima do Cramps é o seu primeiro álbum concebido como tal. Songs The Lord Taught Us, de 1980, registra toda a potência da banda em seu estado máximo de crueza. O produtor Alex Chilton (ex-Big Star, que aceitou pilotar aqueles malucos novatos por um mísero cachê) exigiu que toda a atmosfera dos shows fosse reproduzida nas sessões de gravação. Lux, então, levou o direcionamento ao pé da letra. Enquanto a banda tocava todos os instrumentos de forma simultânea, ele não parou um minuto sequer de saracotear, pular por sobre as cadeiras, destruir amplificadores e rolar pelo chão do estúdio.


Com a fama e o culto ao Cramps crescendo vertiginosamente, o grupo não tardou a ser cooptado pelo mainstream de gravadoras maiores, inclusive chegando a soltar um álbum por uma multinacional. Ganhou também uma série de videoclipes para a MTV e alguns sucessos em maior escala, como “Bikini Girls With Machine Guns”, “Naked Girl Falling Down The Stairs” e “Like a Bad Girl Should” (repare a presença da mesma palavra “girl” em todos os títulos).


Contudo, por uma inexplicável razão, seus discos nunca foram lançados no Brasil no tempo em que só havia vinil – distorção esta corrigida pelo emplacamento do CD. Seus fãs tropicais também sempre foram privados de presenciar uma performance ao vivo da turma de Lux e Ivy. Rumores de que a banda estava prestes a engatar sua primeira experiência em solo brasileiro, apesar de muitas vezes bastante fortes, nunca se tornaram realidade.


A morte de Lux deixa ainda mais triste este comecinho de ano, já balançado pela perda de Ron Asheton (guitarrista dos Stooges) nos primeiros dias de 2009. E soterra de vez as esperanças nossas de estar diante de um dos grandes do rock alternativo que, tal qual Peter Pan e outros tantos espalhados por aí, sempre se recusou a crescer da pior maneira possível.



 


 
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