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Entrevistas: Confronto
Segunda-feira, 6 de Outubro de 2008 (23:45:44)


Rápido, assim como o som que faz, o Confronto já possui um currículo bastante pesado: três discos, participações em coletâneas e splits, shows em alguns países da América do Sul e parte agora para a sua quarta turnê pela Europa, onde é bastante conhecido. Por Márcio Sno e Leonardo Panço






Entrevista

CONFRONTO


Cada dia mais intensos, críticos e agressivos

Márcio Sno e Leonardo Panço



Confronto é uma daquelas bandas que correm por fora. Rápido, assim como o som que faz, já possui um currículo bastante pesado: três discos, participações em coletâneas e splits, shows em alguns países da América do Sul e parte para a sua quarta turnê pela Europa, onde é bastante conhecido.

Quem leu até aqui pode achar que se trata de mais uma boyband que vende horrores de discos e enche os locais por onde passa. Sim, eles venderam horrores e lotam onde tocam, mas de acordo com a proposta e idéias que passam em suas letras e discursos estão longe de ser uma boyband.

O disco recém-lançado, Sanctuarium, mostra uma banda mais forte em seu som e com as mensagens que atiram para todos os lados como de costume, além do material gráfico de alto nível.

O baterista Felipe Ribeiro cedeu essa entrevista para Márcio Sno (MS) e Leonardo Panço (LP) e falou um pouco mais sobre o disco novo, política, família e a próxima turnê que fará ao lado de Felipe Chehuan (vocal), Maximiliano (guitarra) e Eduardo Moratori (baixo).



MS: O Confronto abre o segundo semestre com um disco novo e com a agenda cheia até o final do ano (com uma tour européia no percurso). É certo afirmar que se trata de uma banda underground com perfil de uma “banda grande”?

Não, não tem essa de banda underground com perfil de banda grande, não. Acho que tudo é fruto de um trabalho árduo e de querer fazer as coisas da melhor forma possível, pois a verdade é que a gente se dedica praticamente 100% ao Confronto e queremos fazer de tudo para alcançar o máximo de lugares possíveis e criar uma estrutura para que muito mais coisas sejam possíveis. Existem muitas bandas boas que estão juntas nessa correria dentro da cena independente, não é apenas o Confronto que corre atrás, acho que ainda temos muito caminho pela frente.


MS: O disco Sanctuarium teve lançamento mundial no final de julho. Em quais países ele está sendo lançado e qual é a tiragem inicial?

O lançamento mundial não foi simultâneo como gostaríamos por detalhes na negociação entre o selo europeu e americano, mas o Sanctuarium chegará com certeza a todas as partes do mundo e terá lançamento nos Estados Unidos, Europa e América Latina, além de distribuição direta para os países da Ásia. Quanto à prensagem inicial em outros países nós não temos muitos detalhes ainda, mas aqui no Brasil foram mil cópias iniciais, pois os selos hoje em dia trabalham com cópias sucessivas.


MS: O som nesse novo disco está mais encorpado, firme... Isso representa um amadurecimento da banda?

É... Então, as pessoas estão falando isso sobre Sanctuarium, mas sinceramente eu não sei se isso tem a ver com amadurecimento.  É fato que com o tempo a gente aprende muitas coisas e essas coisas vão sendo colocadas em prática e ficam cada vez mais em evidência. Sempre tentamos fazer um som firme e com idéias firmes e agora talvez nós tenhamos acertado o ponto.


MS: As letras das músicas continuam corrosivas, cheias de denúncias e protestos. Vocês acham que ainda falta muito para podermos ter motivo para falar só de coisas boas?

Infelizmente, sim. Fico triste em afirmar isso, mas não podemos tapar o sol com a peneira e fingir que as coisas não estão acontecendo, né? Não vamos fugir da realidade e, infelizmente, a nossa realidade hoje é triste. Sempre falo que se o mundo fosse flores, nós cantaríamos as flores. Mas infelizmente o que nós temos hoje é o sangue, então vamos cantar o sangue.


LP: No disco novo, as letras mostram um completo desapontamento em relação aos humanos. Vocês acreditam que algo vai mudar? Algum de vocês pensa em se mudar do Rio de Janeiro?

Se nós não acreditássemos em mudanças não cantaríamos as letras que escrevemos. Mas nem sempre a mudança que se espera é a melhor, né? E pra ser sincero, não vejo as coisas melhorando, não. Pelo menos não em um futuro próximo, pois creio que para haver qualquer tipo de mudança pra melhor será necessária uma tomada radical de consciência e acho que infelizmente essa consciência só virá depois de uma grande desgraça. Agora, quanto a ir pra outro lugar - fugir não adianta, pelo menos não é isso que a gente quer. É aquela velha história, quando não se pode mais tapar o sol com a peneira, virar as costas e ir embora é o jeito mais fácil de lidar com a situação e hoje em dia quem quer fugir da violência tem que arrumar as malas e ir morar na Europa, porque aqui infelizmente a realidade é essa. Principalmente no Rio de Janeiro.


LP: No passado, o seu vocal, Chehuan, costumava fazer discursos entre as músicas, o que era bem chato. O que mudou, já que isso não acontece mais? Uma percepção de que o que importa está nas letras? Que quem realmente vai parar para pensar é quem gosta da banda e presta atenção? Ou nenhuma das anteriores...

Então, veja bem... Acho que não mudou em nada se levarmos em consideração que nós nunca deixamos de falar algo nos shows. Eu acho que se fosse pra simplesmente subir no palco, tocar música, descer e ir embora pra casa o rock, hardcore, punkrock, metal etc... Seria pra mim o mesmo que o pagode, funk ou qualquer outro tipo de música e perderia a razão de ser. Pra mim o que faz a diferença é a postura da banda, o que é dito seja no palco ou nas letras, pois acredito que todos nós temos coisas pra falar, pensamentos que queremos expor e, para o Confronto, a música e o palco também servem pra isso. Além do que, por incrível que pareça, existem muitas pessoas que se identificam com as coisas que são ditas independentemente de conhecerem a banda ou não e temos exemplos quase diários disso. Sempre existirão pessoas que se identificarão com suas idéias, com a sua música etc...  Não somos músicos de uma praça de alimentação de um shopping center qualquer que simplesmente chega, toca, faz um som ambiente, guarda os instrumentos e vai embora. Nada contra quem faz a música pela música, eu até gosto de muitas coisas assim, mas esse não é o caso do Confronto.


MS: Vocês gastaram sete meses produzindo esse disco. Foi um tempo hábil para chegar onde queriam ou foi muito corrido?

Conseguimos exatamente o que queríamos dentro do estúdio, com uma produção que eu suponho ter sido uma das melhores no que diz respeito à gravação de uma banda independente no Brasil hoje em dia. Nós tivemos um suporte muito importante do selo Seven Eight Life Recordings pra fazer as coisas da melhor maneira possível, com tempo e calma para atingirmos a sonoridade e as idéias que tínhamos em mente para o Sanctuarium. Trabalhamos com uma pré-produção muito estruturada e passamos o máximo de tempo possível testando afinações, ambiências, timbres, com amplificadores diferentes, salas de gravação diferentes, e isso tudo para chegarmos o mais perto possível de um som que soasse mais orgânico, como as bandas de metal mais antigas que nos servem de influência, mas ao mesmo tempo de maneira que soe como algo moderno e atual. Particularmente, acho que a gente acertou bem o ponto, mas quem dá a opinião definitiva é a galera que está comprando o CD e podemos dizer sobre isso que a resposta está sendo incrivelmente positiva. 


LP: O vocalista Chehuan usou o mesmo método de gravar palavra por palavra de cada uma das músicas para que a dicção saia o mais compreensível possível? A sua mãe ainda serve como parâmetro? Quer dizer, ela foi usada como parâmetro em algum momento? Em algumas músicas muito agressivas do Sanctuarium, é possível entender completamente tudo sem o encarte. Qual o nível de preocupação de vocês com isso?

No momento, o Chehuan está resolvendo outras coisas relacionadas ao Confronto e não conseguiu tempo para participar dessa entrevista, mas como acompanhei todo processo de gravação eu posso te falar exatamente como foi que ocorreu. Bem, como desta vez fizemos todo um trabalho de pré-produção, conseguimos chegar a um nível muito bom para a gravação de Sanctuarium. Desta vez, diferentemente da época do Causa Mortis, a parte dos vocais foi feita quase que diretamente em um só take, mas com a vantagem de gravar no máximo uma música por dia e com o Chehuan sempre 100% e se sentindo bem à vontade para gravar. Por opção nossa e do Davi Baeta (produtor de Sanctuarium), nós trabalhamos o mínimo possível com o sistema de emendas, que todos fazem em gravações como essa, porque queríamos que a voz soasse o mais próximo do real possível, como fica nos shows. Com certeza, a nossa vontade era que o vocal ficasse o mais compreensível que possível e essa sempre foi uma preocupação do Davi em relação às linhas de vocal e desde o disco anterior a gente tenta pegar firme em cima disso. O Chehuan se dedicou ao máximo estudando e praticando, dando uma atenção especial na dicção e nos tons de voz para que a letra das músicas chegassem com o máximo de clareza possível para quem estiver escutando, sem perder a agressividade e a força, que são os seus pontos fortes. Acho que ele conseguiu fazer isso de maneira perfeita. Agora, quanto a mãe dele servir de parâmetro... Acho que ele não fez esse teste, não, mas com certeza se uma senhora que nada tem a ver com a cultura do rock, do metal, conseguir entender com certa clareza a letra, com certeza o nosso objetivo está alcançado.


MS: Geralmente as bandas independentes optam por assumir a produção de suas músicas. No entanto, essa é a segunda produção assinada por Davi Baeta no trabalho do Confronto. É mais interessante alguém de fora para moldar o trabalho? Por que a escolha desse produtor?

O que acontece é que não podemos considerar o Davi como alguém de fora, pois ele sempre está com a gente em produções e em grande parte dos shows. Já vem nos acompanhando em gravações desde 2005 e hoje ele é pra nós como um quinto integrante do Confronto. Além de ser amigo, nós já temos um entrosamento muito grande e ele já sabe exatamente o que queremos, compartilha de muitas idéias e isso é muito importante para o resultado final do trabalho. Na nossa humilde opinião o Davi é um dos melhores produtores de música pesada da América latina.


MS: A produção do material gráfico ficou por conta do Patrick Wittstock, conhecido por trabalhar com pessoal muito importante do rock. Como foi que rolou essa parceria?

O Patrick já havia realizado alguns trabalhos menores pra nós na Europa um tempo atrás, mas essa foi a primeira vez que trabalhamos com ele em um projeto maior que envolve todo o projeto gráfico para o novo CD e para a nova fase do Confronto. Foi algo muito importante pra nós, porque já admirávamos o seu trabalho e ele sempre disse gostar muito do que fazíamos com o Confronto. O interessante de tudo foi ver como um designer alemão conseguiu absorver totalmente a nossa idéia estética para o CD, que é todo baseado em coisas relacionadas à cultura e ao cotidiano brasileiro... O próprio Patrick chegou a nos dizer que era uma experiência muito gratificante pra ele, porque além de trabalhar com uma banda de que gostava, ele estava tendo contato com uma cultura completamente diferente. Com isso, ele passou a se interessar, procurar e conhecer muito mais coisas relacionadas ao Brasil e, para nós, talvez essa tenha sido a coisa mais importante desta união. Ele faz parte da Azrael Design que projeta a parte gráfica para muitas bandas importantes como Grave, Dismember, Caliban, Heaven Shall Burn, I Shall Parish, entre outras, além de trabalhar para selos importantes como a Metal Blade e Nuclear Blast.


MS: Vocês já produziram dois clipes. Têm pretensão de gravar algum de alguma música do Sanctuarium?

Sim, com certeza. A idéia é de fazer pelo menos três vídeos para o novo CD.



MS: A banda é relativamente nova comparando-se ao seu currículo de peso (3 tours européias, pelo Brasil e América do Sul, além de 3 discos) e possui uma forma de trabalhar aparentemente muito profissional. A que vocês atribuem tudo isso?

É difícil dizer assim, né? Mas acho que tudo é fruto de uma tentativa de organização, pois queremos fazer o melhor possível e só poderemos chegar a nossos objetivos tendo o mínimo de estrutura. As coisas começaram a fluir muito bem de um tempo pra cá e tudo começou a crescer consideravelmente, com isso passamos a perder o controle e não dar mais conta de todas as coisas relacionadas à banda. Assim percebemos que só conseguiríamos levar o Confronto pra frente se a gente se organizasse de verdade. Agora as coisas estão funcionando muito bem.


MS: Quantas cópias já distribuíram de seus discos? E quanto às cópias baixadas da internet, o que pensam a respeito?

Um tempo atrás fizemos um cálculo primário e chegamos a um número de 13 mil cópias de CDs do Confronto distribuídos pelo mundo, isso há uns dois anos. Quanto às cópias baixadas na internet, nós do Confronto não podemos reclamar disso por enquanto, pois, por incrível que pareça, todos os nossos discos tiveram cópias esgotadas e foram reprensados mais de uma vez, então acho que de certa forma dentro da cena independente em que nós estamos inseridos existe uma certa idéia ética que respeita e prioriza o mercado independente apoiando as bandas nesse aspecto. Acho que hoje em dia nós temos que ver as coisas de uma outra forma, pois o mercado fonográfico não é e não será mais como antes, acho que devemos rever tanto a postura dos selos, quanto das bandas também. E a grande verdade é que não há o que fazer para se controlar os downloads de música pela internet. Acho, inclusive, que isso tem até os seus aspectos positivos dependendo do caso. Vejo que as gravadoras grandes colocam uma margem de lucro muito grande em cima do CD e isso faz com que ele chegue nas lojas com um preço absurdo, muito caro e fora da nossa realidade aqui no Brasil, sendo assim acho que não há opção para as pessoas a não ser baixar os discos na internet e/ou comprar CDs “piratas”. Não acho aceitável que se pague 30, 40 reais por um CD em um país onde as pessoas ganham em média 500 reais por mês. Isso foge da nossa realidade, não é justo!


MS: Nesse decorrer, vocês dividiram palco com bandas que foram influências para vocês. Como é isso?

Isso é uma coisa legal e importante para a banda. Houve momentos muito bons e outros decepcionantes, mas isso faz parte, né? Pois às vezes vemos as bandas com olhar de fã e esquecemos que no final todos são seres humanos e têm seus defeitos.


MS: Vocês já são bastante conhecidos na Europa, como é a questão das letras? O povo entende ou rola uma “tradução simultânea”? Ainda não sentiram a necessidade de gravar em inglês?

Não vou mentir. Isso, mesmo de maneira muito longe e rápida já passou pela nossa cabeça, sim, mas a realidade é que de fato não queremos isso. Acho que o mais importante é que as pessoas daqui escutem e entendam o que nós falamos. Não que os europeus e americanos não sejam importantes, muito pelo contrário, são importantíssimos. Mas a verdade é que a gente tem que tentar valorizar o máximo possível a nossa cultura e fazer as coisas voltadas primeiramente para as pessoas que tem uma identificação direta com a gente, com a nossa realidade, com as nossas vidas... Não podemos tratar o nosso povo de maneira secundária e nem tudo nessa vida se resume à lógica de mercado, isso pelo menos pra nós.

Essa postura do Confronto também faz com que aconteçam fatos importantes pra nós, como por exemplo, ver as pessoas na Europa cantando as músicas em português e querendo saber mais sobre a nossa cultura, e também sobre os nossos problemas, perguntando e se interessando pelas coisas que a gente fala em nossas letras ou mesmo no palco. Além disso, todas as nossas letras vêm traduzidas para inglês no encarte do CD e nós sempre damos total abertura para que as pessoas de lá perguntem sobre a nossa realidade aqui, dessa maneira acabamos falando sempre sobre o Brasil. Falando tanto das coisas boas, quanto das coisas ruins também, né? Claro, pois não vamos mentir pra eles dizendo que é tudo carnaval e futebol, né? A gente tem que dizer a verdade pra eles. 


MS: Já rolou algum convite pra tocar em lugares mais distantes como Ásia, por exemplo?

Convite nós já tivemos alguns, mas tudo é uma questão de negociação, agenda e condições. Com certeza muitas coisas vão acontecer, pois já temos muitas coisas praticamente acertadas para turnê de Sanctuarium e em breve serão anunciadas.


MS: O Confronto é citado com uma das principais bandas de metalcore do Brasil. O que acham desse título? Vocês concordam com isso?

Em relação ao metalcore, acho que esse é um rótulo relativamente recente e que faz até um certo sentido se levarmos em consideração que nós realmente fazemos uma mistura entre os elementos do metal e do hardcore. Quando começamos não existia isso, a banda ou era metal ou era hardcore e não existia essa identificação. Agora, quanto à questão de ser uma das maiores bandas de metalcore do Brasil acho que já não cabe, né? Porque, assim, acho que tem muitas outras bandas legais aí e nós somos apenas mais uma banda na correria.


MS: A banda mantém a mesma formação desde o começo. O que explica se “aturarem” por tanto tempo?

Acho que é o amor pelo que fazemos e os mesmos objetivos. Todos nós estamos realizando os mesmos sonhos e isso é importante, pois acho que o fundamental é fazer as coisas com sentimento.


MS: Vocês hoje se dedicam 100% ao Confronto. O pessoal da sua família e conhecidos parou de perguntar “quando vão começar a trabalhar”?

O que acontece é que a gente já tá meio velho, né? Então a família já largou de mão. Também pelo fato de nós termos começado a tocar em banda desde muito jovens, acabamos deixando a vida social de lado há um bom tempo e, como já disse um grande amigo nosso, a verdade é que estamos apodrecendo dentro desse meio, mas nós gostamos disso e isso é o que importa.


MS: O Confronto já tem várias datas agendadas para tocar na Europa. Como está a expectativa para essa quarta tour?

A expectativa é a melhor possível, nós vamos pela quarta vez e com certeza daremos o nosso melhor, como sempre. Desta vez vamos fazer uma turnê menor do que de costume, pois das outras vezes fizemos turnês de dois, três meses e agora faremos apenas um mês. Faremos boa parte da turnê junto com uma banda dos Estados Unidos chamada Die Young e temos a total certeza de mais uma turnê muito bem estruturada, pois já temos um booker e um selo por lá que nos oferece um bom suporte.


MS: Sabemos que comparando o Brasil com outros países temos muito que melhorar em vários aspectos. Com essa experiência fora, quais pontos vocês podem citar como prioridade?

Acho que devemos fazer as coisas com atenção e responsabilidade tentando empregar e oferecer o maior suporte possível para a cena independente. Sempre digo que hoje as coisas estão bem melhores que em tempos atrás, longe de estar perfeito, claro. Mas fico feliz de ver pelo menos que está tudo caminhando. Vejo as bandas mais estruturadas, melhores shows, melhores estruturas, um som melhor, um apoio melhor etc... Não gosto de comparar as coisas da Europa com o que temos por aqui, porque são realidades muito diferentes tanto cultural, quanto econômica e financeiramente. São outros padrões e outros valores que ficam difíceis de entender fora do contexto deles, acho que nós não podemos viver de comparação e de lamentação, acho que nós devemos é buscar soluções e alternativas para os nossos problemas, buscando fazer as coisas com o pé no chão e sem fugir da realidade. Fica difícil pra nós citar uma prioridade, mas ter a consciência dos problemas pode ser um primeiro passo. 


MS: Um dos pontos fortes do Confronto está nas letras, que deixam claro o posicionamento idealista dos integrantes. Vocês levantam alguma bandeira ou pertencem a algum grupo ou movimento ideológico?

Nós temos os nossos posicionamentos ideológicos pessoais, sim, mas o Confronto como banda não levanta bandeira e não pertence a movimento ideológico nenhum. Nós temos as nossas idéias e utilizamos a banda apenas para expressarmos sentimentos que temos em comum, não somos braço de partido político, ONG ou grupo guerrilheiro, somos apenas pessoas que vivem em um ambiente de caos e que, assim como 90% dos brasileiros, convivem lado a lado com a miséria e com o descaso. Não somos os donos da verdade, não queremos de maneira nenhuma impor as nossas crenças e ditar regras a serem seguidas. Falamos o que vemos e o que pensamos e o que acontece é que muitas pessoas acabam se identificando, talvez por observarem o mesmo mundo que nós. 


MS: O mundo hoje joga os holofotes para a eleição do futuro presidente dos Estados Unidos, com os noticiários chegando ao extremo de falar algo como: “hoje a esposa de Barak Obama é apresentada aos americanos e para o mundo”. Até onde vocês acham que essa hegemonia estadunidense de donos do mundo continuará?

Na minha opinião, quanto mais se tem, mais difícil fica para se administrar. Acho que a política externa americana causa tanta desgraça, tanta miséria e é responsável por tanta desigualdade, que vai chegar uma hora que essa desigualdade irá atingi-los de alguma forma, seja através da guerra ou através do revés da natureza. O mundo caminha em uma estrada de mão única e da onde a gente está eu infelizmente não vejo mais volta. Acredito que a queda do império econômico e cultural norte-americano virá de maneira natural e drástica, porque eles optaram por uma política agressiva contra os povos e contra a natureza, e a natureza, você sabe, né? Ela é implacável. O povo pode ser massacrado com embargos, intervenções militares e políticas, mas a natureza, não. A natureza tem a sua própria regra de existência e é maior do que o homem.


MS: Em épocas de ditadura brasileira, o governo militar usou a Copa do Mundo de Futebol como um recurso para esconder a repressão. Recentemente aconteceram as Olimpíadas realizadas num país cuja população em sua grande maioria vive abaixo da linha de pobreza e o seu governo ainda tem atitudes como as investidas realizadas no Tibet. Vocês acham que o duo pão e circo está cada vez mais forte ou a China só está assim porque está se tornando uma potência mundial?

Isso é um misto dos dois. Todos nós sabemos que esses tipos de evento nada mais são do que meios utilizados para fortalecerem empresas privadas sob o pretexto de incentivo ao esporte. O fato é que o mundo e tudo o que existe nele segue uma única lógica: a lógica de mercado e a tal política do pão e circo serve justamente para manter essa lógica.


LP: A postura de vocês em relação ao holocausto animal geraria atitudes radicais se levadas ao extremo. Vocês estariam dispostos a morrer por isso? Não sei se é o tipo de pergunta comum em uma entrevista de uma banda de rock. Se uma banda de rock tem que ter tanta responsabilidade nas costas, mas...

Existem coisas pelas quais eu poderia morrer agora e essas mesmas coisas podem não significar muito daqui a seis meses, assim são as pessoas que se envolvem pelo sentimento e nós falamos o que sentimos, somos assim. Mas cada um na banda tem a sua própria opinião no que diz respeito ao real valor e sentido da vida. Eu tenho a minha, mas creio não vir ao caso aqui agora... Em relação à causa dos direitos dos animais, eu posso estar errado, mas realmente não creio que uma vida entregue a essa causa fará com que alguma coisa mude, pelo menos essa é minha visão. Além do que existem atitudes que pra nós parecem radicais, mas que para outras pessoas são suaves como brisa de outono... A gente costuma ter medo e rejeitar o que nos parece diferente, achamos que tudo que foge à nossa lógica é radical, mas nem sempre estamos certos. Mas o fato é que cada um leva o peso que conseguir agüentar nas costas e quem somos nós pra julgar, né? Eu posso falar somente pelo Confronto e sempre digo pras pessoas que fazem esse tipo de pergunta que nós não somos uma ONG, partido político ou grupo guerrilheiro, acho que uma banda de rock será sempre uma banda de rock e não muito mais além disso, o que não quer dizer também que ela deve ser desprovida de opiniões e crenças. As músicas e letras feitas pelo Confronto expõem apenas as nossas idéias, os nossos sentimentos, as nossas opiniões, nossos valores e nunca vamos querer impor-las como verdade absoluta para ninguém.


LP: Vocês pensam em ter filhos? Em caso positivo, duas questões. Com a violência desmedida na cidade - vale a pena? No caso de sim, vale, de que maneira eles seriam criados? Vocês usariam óleo de bebê da Johnson’s [A Johnsons´s é uma das empresas que testam seus produtos em animais. Esses produtos são boicotados por todos aqueles que defendem a causa animal]? Como lidar com essas pequenas questões?

Então, eu posso falar por mim e digo que realmente não pretendo ter filhos.  Os outros caras da banda, eu já não sei, alguns eu acho que sim, mas somente eles pra dizerem como pretendem criar os filhos. Realmente na direção em que o mundo vai fica difícil a gente esperar um futuro melhor pra quem vai nascer agora, né? Mas cada pessoa tem a sua visão de futuro e tem seus sonhos e quem sou eu pra dizer o que é certo ou errado, né? Agora, quanto à questão do óleo Johnson, é que a Johnson & Jonhson realiza teste de seus produtos em animais, o que nós não achamos correto.


LP: Já contratei dois guarda-costas depois destas perguntas, aqui vai mais uma. O disco novo poderia ser mais variado um pouco, na minha opinião. Vocês ouvem depois de pronto e acham “ei, podia ter feito umas vozes diferentes, uns riffs diferentes”, ou acham que os fãs vão gostar assim? O que está lá, está sensacional, muito pesado e muito agressivo. Isso que eu questiono seria como querer que os irmãos do Krisiun ou os do Obituary tivessem variado mais também, ou seja, um disparate?

Pô, que isso... Não precisa de segurança, não, a gente não é tão bravo como você pode pensar, não, e, pra dizer a verdade, pra nós é um prazer estar respondendo essas perguntas pra você. Mas no que diz respeito ao som, a nossa idéia foi justamente essa, fazer do disco uma espécie de massacre sonoro sem pausas ou tempo pra respirar, porque isso faz com que o CD ganhe a intensidade dos nossos pensamentos e a força dos nossos sentimentos. Quando fazemos as músicas e as letras, as nossas mentes estão em um ritmo completamente acelerado, quer dizer... A nossa mente está sempre em descompasso com o resto do mundo, pelo menos pra mim é assim, nós temos muitas coisas na cabeça, muitos projetos, problemas, frustrações, sonhos, vontades e queremos expressá-los de alguma forma e o Confronto é essa válvula de escape, o que conduz os sentimentos e idéias... Todos precisam disso, né? Se nós vemos um mundo voraz a nossa música será voraz, se vemos o mundo agressivo, a nossa música será agressiva, se o mundo tem ódio, então cantaremos o ódio também... É lógico que existem as coisas boas, mas essas, todo mundo já fala, então nos resta aquilo que ninguém quer falar, ninguém quer ver, que ninguém quer tocar, que todos querem esquecer e essas coisas são intensas, pesadas e agressivas, sendo assim, enquanto elas existirem o Confronto será intenso, pesado e agressivo.  


MS: Soube de uma fonte segura de que todos na banda, exceto o Maximiliano, têm problema de falta de senso de direção, causando alguns transtornos como o Chehuan perdido em algum lugar da Europa. Por quais outros incidentes vocês passaram por conta desse leve distúrbio? Vocês já estão conseguindo superar isso?

Realmente o Max tem uma percepção geográfica fora do normal e consegue se situar em qualquer lugar do mundo sem radar ou GPS. Tem uma memória e senso de direção realmente que não são comuns. Agora, o mais problemático foi quando eu me perdi na Bulgária com o Chehuan, pois ele cismou de comprar um boné e me chamou pra ir com ele, eu não sabia o caminho, mas como havia dito que estava tranqüilo, então fui com ele, né? Mas o que aconteceu foi que as ruas eram muito parecidas e não havia nada que pudéssemos fazer, pois nem as letras da placa nós conseguíamos ler, pois eram escritas em cirílico [idioma local]... Que pra mim nada mais são do que símbolos incompreensíveis. Ninguém falava inglês, não tinha como decifrarmos o que estava escrito nas ruas, não sabíamos a direção em que estava a van, não conhecíamos ninguém e não agüentávamos mais andar à deriva pela cidade, então não restou outra opção a não ser sentar e esperar. Foi o que fizemos, sentamos tristes e esperamos que algo acontecesse até que teve uma hora que nos levatamos, andamos um quarteirão voltando e encontramos a van com o resto da banda esperando pela gente. Chegamos e nem falamos nesse assunto, ficamos quietos, porque não íamos dar o mole de dizer que a gente havia se perdido, né? Dissemos que havíamos demorado, pois estávamos vendo as lojas e tal... Isso acontece, fazer o quê? Mas já foi superado e isso que importa. 


LP: É possível fazer mais do que vocês fazem? Vocês vão dormir todos os dias achando que "ei, hoje eu fiz diferença no mundo"?

Sempre é possível fazer mais, essa é a verdade e nós nos cobramos por isso. Mas a gente não pode e não consegue fazer tudo que tem vontade, né? Querendo ou não querendo, a gente está preso em um sistema de vida que suga as nossas forças e nos impõe uma forma de conduta que nos faz ficar presos em nós mesmos, cercado pelos nossos próprios pensamentos e infelizmente isso nos enfraquece. Mas eu não vou pra cama com esse pensamento de fazer diferença no mundo, não. Acho que diferença todos nós fazemos de uma maneira ou de outra, positiva ou negativamente, dependendo do ponto de vista. A minha mente é povoada de muitas coisas, problemas, coisas pessoais, que acabam se refletindo nas letras e músicas do Confronto e assim acontece com os outros da banda também e como já falei lá em cima, nós somos apenas uma banda de rock, não podemos salvar o mundo e talvez nem a nós mesmos.



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CONFRONTO
Sanctuarium
(78 Life Recordings)


Por Márcio Sno

O caos. Ele é anunciado sem meias palavras nesse terceiro álbum dos cariocas do Confronto. Nesse disco, a banda mostra que cresceu principalmente no instrumental, com uma guitarra pesadíssima (às vezes dá a impressão de serem duas), um baixo forte (se bem que poderiam aumentar um pouquinho o volume) e uma bateria que constantemente parece uma metralhadora, atirando para todos os lados. Os vocais de Chehuan, bastante inteligíveis, soam como o de um “mensageiro do Apocalipse”. O material gráfico casou bem com a proposta do som da banda. O tom das cores e as ilustrações, sugerindo uma época medieval, acabam fazendo um belo par com a última faixa “Ossos E Carne Diante Do Desespero”. Não dá para fugir do lugar-comum de falar que a banda representa o que há de melhor no metalcore brasileiro, principalmente pela qualidade do som e seu profissionalismo.

[Analisando bem, cheguei à triste constatação de que o inferno proferido em seus versos é aqui mesmo: no nosso país, no nosso estado, no nosso bairro, na nossa rua, na nossa casa, na nossa vida. Essas palavras ganham mais força pelo fato de eu ter escrito esta resenha em um ônibus que circula na periferia de São Paulo, onde a verdade vem mais clara e forte. Apesar das mensagens não serem muito otimistas, me bateu uma grande felicidade ao ouvir esse disco, afinal “nossa pele é parda, mas o coração é forte”.]




 
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