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Matérias: Beck Culpado / CEL
Quarta-feira, 9 de Julho de 2008 (21:03:44)


A reflexão de uma modernidade meio vazia e frustrante, em que tudo parece possível mas poucas situações realmente transformam algo. Beck tem autoridade para sentir saudades de novidades relevantes e não tem mais interesse em soar como uma delas. Por CEL





BECK CULPADO

Carlos Eduardo Lima



Desde que surgiu para as lentes da MTV e os ouvidos do mundo, Beck Hansen é um artista a ser levado em conta. Seus trabalhos na década de 1990 ajudaram a expandir limites e quebrar um monte de barreiras estéticas que pareciam definitivas. O sujeito misturou estilos, criou novas e duráveis ligas musicais que pavimentaram o caminho para muitos artistas que vieram a seguir e, claro, para o próprio Beck desenvolver seu trabalho.


Quando lançou o primeiro disco, Mellow Gold, Beck teve sua imagem vendida como um Beastie Boys de um homem só, movido pela mesma modernidade e habilidade em lidar com ritmos negros (principalmente funk, hip-hop e rap) mesmo sendo um rapaz branco antenado e moderninho. Além disso, Beck não só lidou com ritmos negros como acrescentou à maçaroca sonora a sua visão personalíssima de estilos brancos como o country e o folk.


Discos como Mellow Gold (1994) como Odelay (1996) foram trabalhos extremamente criativos e inovadores. O primeiro forneceu anti-hits como "Loser", cujo refrão anglo-espanhol dizia "Baby, I´m a perdedor, so why don't you kill me" (baby, sou um fracassado, por que você não me mata?), colocou a cara de enfant terrible de Beck no mapa e mostrou a capacidade (auto)crítica do rapaz ao disparar contra os conceitos tão americanos que coloca as palavras "winner" e "loser" em rota de colisão para definir pessoas e atitudes.


Beck admitia sua condição em meio a um rap torto e impulsionado por violões sampleados e clamava por uma morte irônica e desmedida. O que ele pregou nessas palavras tortas foi executado em forma de som com Odelay!, o disco que forjou o "método Beck" de música; rico, imprevisível e ácido. Nada produzido nos anos 90 foi capaz de alcançar sua proposta do trabalho, uma mistura de dança, alienação, cultura de massas subvertida em cultura pop e toda uma série de possibilidades infinitas.


A impressão passada por canções como "Devil's Haircut", "Where Is At", "New Pollution" é que o mundo estava de cabeça pra baixo, fragmentado por inúmeros "produtos culturais" de qualidade duvidosa. Beck aparecia como um catador de lixo que faz uma obra de arte com dejetos e destroços. Odelay! foi seu momento maior e povoou suas criações seguintes, até seu novo disco, Modern Guilt, lançado agora.


Em alguns momentos da carreira, o padrão Odelay foi mais notado, especialmente em Midnite Vultures (1999) e Guero (2005), discos que partem de fragmentações e constroem algo novo e sustentável. Em outros momentos (principalmente em Sea Changes, de 2002), Beck se aventurou a produzir algo mais "convencional" em termos de estrutura e estética. Ali, após um fora da namorada, ele recrutava Nigel Godrich (o produtor de OK Computer, do Radiohead) e encarnava um Nick Drake caótico e estranho, dissertando sobre o fim dos tempos e as possibilidades de vida após as desilusões amorosas que matam quem as sofre.


Modern Guilt é o décimo trabalho da carreira de Beck, se entendermos o apêndice remixado Guerolito (2005) como uma espécie de bônus de sua obra inspiradora, Guero, lançado no mesmo ano. Aqui ele forma dupla com o badalado produtor Dangermouse, a metade pensante do Gnarls Barkley, também produtor de sucesso requisitado tanto por Beck quanto pela dupla hard rock-caipira Black Keys.


Se Dangermouse existe como entidade centrifugadora de sons e influências, há muito que se falar no trabalho anterior do próprio Beck. Formações como Gorillaz (do qual Dangermouse também participou) e o próprio Gnarls Barkley devem tudo à tal estética amalucada que foi inventada nos trabalhos iniciais da carreira de Beck, sobretudo Odelay!. Sendo assim, a "criatura" ajuda o "criador" nesse Modern Guilt e o resultado é melhor disco de Beck em muito tempo.


A proposta aqui é usar o máximo de objetividade nas canções, cortando assim as viagens pseudo-psicodélicas, talvez um dos únicos flancos abertos a detratores no trabalho de Beck. Ao longo dos 34 minutos do disco, Beck passeia por uma sonoridade que pode oscilar entre arremedos de wall of sound (na abertura de "Orphans"), passando por grooves negros sintéticos à la Talking Heads (no baixo de "Youthless"), visitando a sonoridade ancestral de um Eddie Cochran (em "Gamma Ray"), chegando até os porões dos hits dourados sessentistas (em "Walls") ou nos excertos da experimentação do Sonic Youth (em "Soul Of A Man").


Beck faz tudo isso com propriedade e pertinência. Apenas duas canções ("Chemtrails" e "Volcano") ultrapassam os quatro minutos de duração, o que facilita a absorção do que Modern Guilt quer transmitir, ou seja, a reflexão de uma modernidade meio vazia e frustrante, em que tudo parece possível mas poucas situações realmente transformam algo. É sobre a letargia que pontua os avanços, sobre os celulares que fazem de tudo - até ligações telefônicas - e sobre a condição da humanidade de prisioneira das novidades, ainda que sejam vazias e sem sentido. Beck tem autoridade para sentir saudades de novidades relevantes e não tem mais interesse em soar como uma delas. Bom pra nós, claro.  Modern Guilt é um dos discos do ano.



 
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