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rip: Hey! Bo Diddley
Terça-feira, 3 de Junho de 2008 (15:01:03)

 

Bo Diddley morreu. E daí?, pergunta o fã de death metal. E daí?, pergunta o trintão que acha que o rock começou em 1991 com o Nirvana. E daí?, pergunta a fã apaixonada pelo Fall Out Boy. E daí?, perguntam apreciadores de Pixies, Guns N'Roses, das synth bands dos 80, dos Stooges, do techno, do U2...



 

 

Hey! Bo Diddley

 

zeca azevedo


E daí? Respondo: toda pessoa que tem o rock - mais precisamente, a cultura do rock - como um dos eixos de sua vida devia saber o que esse homem representou para o gênero de música dominante nas últimas cinco décadas. Mais do que um "original", um dos "pais do rock'n'roll", Bo Diddley foi um gênio do ritmo. Sua batida, marca registrada que inclui o suíngue da rumba, a força telúrica do blues e o choque elétrico do R&B, foi uma das mais perfeitas traduções dos ritmos dos tambores africanos no contexto da música popular norte-americana do século passado.

 

 

A guitarra Gretsch retangular eternamente associada a ele foi uma das mais precisas máquinas de ritmo da era do rock. A música de Bo Diddley, profundamente negra, celebrava a vida, o corpo, o prazer físico, sobrepunha o pulso à melodia, não oferecia muita variedade de acordes e tinha a parte vocal caracterizada por frases repetidas e hipnóticas que pareciam saídas de algum ritual africano. Podemos dizer que Bo Diddley foi precursor do funk - não foi à toa que ele gravou excelentes discos de funk no início dos anos 70.

 

A figura rechonchuda que se apresentava com chapéu de vaqueiro e óculos enormes, de aros grossos, não era exatamente feita para as capas de revistas teen dos anos 50. Ainda assim, Bo Diddley foi um astro nos fifties, sacudindo milhões de topetes e rabos-de-cavalo mundo afora com as gravações que fez para o legendário selo Chess de Chicago.

 

 

Entre os clássicos que Bo legou para o mundo encontramos o standard do rock “Who Do You Love”, escrito por ele, uma obra-prima que sumariza a precisão rítmica e a energia primal da arte do guitarrista-cantor. É a minha canção favorita do mestre, mas há mais: “I'm a Man”, hino profano que celebra a virilidade e a energia vital, foi escrito por Bo e lançado em disco em 1955. Trata-se de canção importantíssima, de grande relevância e significado social (intuído por Bo?), pois apresenta um afro-americano cantando a plenos pulmões a frase "Eu sou um homem!" em plena era do despertar do Movimento dos Direitos Civis que combateu a segregação racial nos EUA.

 

 

“I'm a Man”, de Bo Diddley, pode ser colocada ao lado da gravação de “Respect”, de Aretha Franklin, como uma peça cultural que transcende seu sentido imediato e registra os anseios de liberdade e de igualdade mais profundos de uma comunidade, no caso, a dos afro-americanos dos Estados Unidos (e do mundo todo).

 

Assim como “Who Do You Love”, “I'm a Man” virou um clássico do cancioneiro popular, recebendo interpretações marcantes do Who, dos Yardbirds e dos Stones, entre outros grupos célebres de rock. O primeiro LP de Bo Diddley, uma compilação de singles lançada em 1958, traz o nome do artista como título e inclui essas duas faixas, bem como outras gravações destinadas à glória eterna do rock: “Hey! Bo Diddley”, “Before You Accuse Me”, “Diddley Daddy” e ‘Pretty Things”. Esse LP é, claro, um dos melhores e mais importantes momentos musicais dos anos 50. Um álbum indispensável em qualquer coleção de discos de rock que se preze.


A influência de Bo Diddley transcendeu a geração dos "baby boomers" roqueiros (Beatles, Stones, Who, Animals e outros) e alcançou o U2, que tomou emprestada a batida do mestre para fazer a canção “Desire”, grande sucesso do disco Rattle and Hum, de 1988. Porém, o valor da música de Bo não se encontra na influência que exerceu sobre roqueiros mais populares e (muito) mais ricos do que ele, mas na energia cinética que lhe é própria. Infelizmente, ele não é conhecido no Brasil como deveria. A culpa, creio, é das gravadoras, que lançaram poucos discos seus por aqui nos últimos vinte anos.

 

Agora que Diddley faleceu, será que os "roqueiros" citados lá no primeiro parágrafo desse texto vão querer saber quem era o cara, como era o som que ele fazia e vão decidir fazer alguns downloads? Não, acho que isso não vai acontecer. Uma coisa é certa: fã de rock que nunca ouviu Bo Diddley não sabe o que é rock.

 

 


 


 
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