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filmes: Don’t Look Back
Terça-feira, 3 de Junho de 2008 (0:24:12)


“Vai se foder! Você é um metido, sabia?” 





Quem é o metido? Bob Dylan! E está tudo registrado e eternizado pelas lentes de. D.A. Pennebaker no documentário Don’t Look Back, lançado originalmente em 1967 e que saiu em DVD em edição nacional.

 

Bob Dylan, Don’t Look Back

Cristiano Viteck


Rodado em preto e branco, Don’t Look Back é um dos filmes de rock mais clássicos da história. Ele registra a turnê de Bob Dylan pela Inglaterra em 1965, divulgando o disco Bringing It All Back Home, naquela que seria a sua última turnê acústica. Com total acesso aos palcos, camarins e quartos de hotel, D.A. Pennebaker conseguiu realizar um legítimo cinema verdade. Ou seja, interferindo o mínimo nos acontecimentos que filmava, o diretor retratou com bastante fidelidade, ou o mais próximo da realidade possível, Bob Dylan em uma fase de evidente transformação.

O cantor já não aceitava a pecha de músico folk, mas também não se considerava um artista pop. Ao mesmo tempo, descartava rótulos que buscassem enquadrar a sua música nessa ou naquela categoria e, em contrapartida, começava a experimentar cada vez mais, a ponto de logo depois passar a excursionar sempre com uma banda de rock, para o desespero de alguns fãs e para a felicidade de outros.

Na época em que Don’t Look Back foi filmado, Bob Dylan não era mais aquele músico de olhar acanhado e receptivo aos jornalistas ou apresentadores de TV, como costumava ser no início de carreira. Aliás, boa parte do DVD mostra o embate entre os jornalistas e o cantor. De um lado, Bob Dylan, a tal voz de uma geração, o trovador, a consciência de uma juventude radical, e claro, o artista que começava a perceber que a polêmica era uma boa forma de se promover. De outro, uma imprensa que ainda não sabia direito como lidar com artistas pop e que demoraria um pouco mais a entender que os tempos, nos anos 60, estavam mudando e que as respostas, meu amigo, estavam soprando no vento.

Desses encontros quase sempre nada amistosos, é natural que a imprensa publicasse textos como esse sobre um dos shows de Bob Dylan na Inglaterra na turnê de 1965: “Ele gosta mais de cerimônia do que de cantar. Sua tragédia é que o público se preocupa com a música. Assim, os garotos de barba e as garotas de cabelo comprido com sombras nos olhos e maquiagem apagada, aplaudam canções e não entendam, talvez, os sermões. Eles estão lá, fazem parte. Mas quão distantes eles estão de manifestações, greves, protestos e da vida? Dylan canta ‘os tempos estão mudando’. Eles estarão quando um poeta lotar uma casa de shows, não um cantor pop!”

Além dos duelos de Bob Dylan com a imprensa, D. A. Pennebaker também destaca em Don’t Look Back a luta do seu voraz empresário Albert Grossmann (que também trabalhou para os Rolling Stones) em busca de shows rentáveis ao máximo. Chegam a ser engraçadas as cenas em que cantor e empresário estão lado a lado, tamanho o contraste entre os dois. O produtor, um senhor balofo de terno e gravata, ávido por extrair cada moeda que público e contratantes estivessem dispostos a pagar para ter um pouco da atenção de seu pupilo; Dylan, um dos maiores símbolos da contracultura, magro, cabelos desgrenhados, unhas sujas, dentes que não eram nenhuma beleza e devorador de cigarros, visto por muitos como um comunista e nem sempre muito sóbrio. O casamento perfeito entre a rebeldia e negócios: uma fórmula de sucesso, certo?

Questões financeiras e problemas com a imprensa à parte, é óbvio que o filme também dá destaque às apresentações de Bob Dylan. Apesar de praticamente nenhuma canção dos shows ser mostrada na íntegra, é fantástico ver como um jovem cantor, há não muito tempo saído de um cafundó de Judas qualquer dos Estados Unidos, carrega com naturalidade platéias de 3, 4, 5 mil pessoas do outro lado do Atlântico. Destaque especial para a sua apresentação no magnânimo Royal Albert Hall, uma das casas de espetáculos mais belas e nobres da Inglaterra, construída no final do século XIX.

A satisfação de Dylan em tocar naquele local pareceu ser ainda maior que a do público, que comprou todos os ingressos para vê-lo. No camarim, logo após essa apresentação, o cantor desdenhou do público, falando aos seus colegas: “Na verdade, os aplausos são meio que besteira”. Porém, numa cena seguinte, já dentro do carro indo embora do Royal Albert Hall, após alguns minutos refletindo, Bob tem uma revelação: “Meu Deus, parece que atravessei alguma coisa, cara! Quero dizer, tem alguma coisa especial nisso tudo!”.

De fato, naquela época, Bob Dylan, um judeu, estava realizando a sua pessach, a sua travessia. Foi em 1965 que ele se encaminhou definitivamente para se tornar um artista, se não genial, pelo menos algo bem próximo disso. Ainda naquele mesmo ano ele gravaria o álbum Highway 61 Revisited – que trazia o hino “Like a Rolling Stone” –, e logo depois, no início de 1966, viria com o disco duplo Blonde on Blonde (talvez o melhor de toda a sua carreira).

Na maior parte do tempo arrogante e cínico com jornalistas e fãs, ainda assim o Bob Dylan de D.A. Pennebaker em Don’t Look Back se mostra, definitivamente, um dos artistas mais intrigantes da música nas últimas quatro décadas. Por documentar o artista em uma fase tão especial, este filme deve ser visto, revisto e apreciado em cada um dos seus preciosos 97 minutos de duração.


 
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