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Matérias: Mutantes Depois / Marcos Donizetti
Quinta-feira, 8 de Maio de 2008 (3:21:30)

No ano em que os Mutantes completam 40 anos, Sérgio Dias apresenta a nova formação da banda, incluindo a nova vocalista, lança sua guitarra e "Mutantes Depois", o primeiro single inédito desde os anos 70. Em entrevista, fala da relação com Rita Lee e Arnaldo Baptista, da necessidade de compor inéditas e da parceria com Tom Zé nas músicas do disco novo, que sai ainda este ano. Por Marcos Donizetti





MUTANTES Depois

Marcos Donizetti


"Eu penso que tudo que pode dar certo, dará certo. É um Murphy ao contrário". As palavras otimistas de Sérgio Dias na entrevista coletiva que se seguiu à apresentação do novo single, “Mutantes Depois”, chegam a surpreender. Otimismo autêntico, sincero, não fabricado em laboratório e vendido em farmácia é coisa rara hoje em dia. Mas o discurso do Mutante é coerente, ainda que muitos possam achá-lo ingênuo.


Em 1973 o Brasil não era um bom lugar para se estar. A ditadura vivia seu pior momento. O próprio Sérgio relembra o absurdo da repressão vivido alguns anos antes: "Não saiam do hotel porque vocês são a bola da vez, nos diziam. Caetano e Gil acabavam de ser presos, e nós éramos os próximos". Naquele ano, o flower power dos anos 60 já era passado distante, Rita Lee não estava mais na banda e a gravadora não aceitava muito bem os rumos que eles tomavam.


Ainda assim, o disco O A e o Z, gravado ali e lançado apenas em 1992, tinha uma música que dizia sermos todos "uma pessoa só" (você também está cantando/ você também está tocando/ estamos aqui numa boa pescando pessoas no mar) e outra onde o jovem profetiza cheio de otimismo que "ainda vou transar com você" e "que talvez a nossa música não tenha mais fim/ e talvez o fim de semana não tenha mais fim".


Sérgio Dias lutou ainda alguns anos para manter a banda viva, e não é coincidência que o pocket show de apresentação da nova música, ocorrido no último dia 24 de abril, no Teatro Municipal de São Paulo, tenha começado com "Uma Pessoa Só", afinal o momento vivido hoje pela banda é muito parecido com aquele da gravação de O A e o Z.


Rita Lee ainda está longe: "Tudo o que ela disse no Fantástico está bem claro. Eu amo a Rita de coração, ela é minha irmã, independente do que tenha dito. Acho que ela vive uma vida completamente diferente da nossa, ela está vivendo outro caminho, maravilhoso. Na época, quando nos reunimos, mandei um email pra ela. Quando fiz ‘Mutantes Depois’, mandei a música pra ela, perguntei se ela queria escrever uma letra, mas infelizmente ela não respondeu. Aí eu fiz a letra e foi bom, porque eu tomei uma posição, e é uma tomada de posição de vocês também".


Arnaldo Baptista resolveu não participar mais dos Mutantes e decidiu tocar outros projetos: "Por que ele saiu não vem ao caso. Pergunte à Lucinha! [nota: Lucinha Barbosa, mulher de Arnaldo]. A gente quer mostrar o que a gente fez, dar a cara a tapa, mostrar coisas bonitas, afinal somos os Mutantes. Se ele quiser voltar, estamos de portas abertas, assim como para a Rita também, e cada um faz o que quer".


E o mundo de hoje, está tão diferente assim do que era naquele tempo? "Nós somos o resultado de um golpe de estado mundial. A partir de 61 sofremos essa dominação absurda, depois em 64 um golpe de Estado aqui, tudo muito terrível. Vocês sofreram um estupro incessante desde aquela época (...), vocês hoje vivem o resultado disso, que é muito pior do que a gente viveu. Hoje as pessoas não sustentam mais o olhar do outro, é uma política do medo. Agora, estamos intelectualmente um pouco mais inteligentes, na época não víamos tanta maldade. Mas hoje é uma necessidade olhar para seu umbigo e saber de onde você veio e para onde você vai".


Interessante notar que o tema da canção inédita novamente remete à idéia de que somos todos Mutantes. Se antes também estávamos cantando e éramos "as pessoas pescadas no mar", hoje somos "as sementes jogadas ao chão", os "Mutantes depois". Mas há uma diferença.


No passado o "fim de semana não teria mais fim", mas agora Sérgio Dias pergunta o que faremos "ao chegar o dia em que um Mutante morrer", e diz que devemos aceitar um legado: "nós estamos aqui para algo que acreditamos ser o nosso futuro, os Mutantes depois, o legado que deixamos para vocês. Nenhum de nós morreu, mas e quando morrermos? A tocha estará com vocês, vocês serão responsáveis, vocês continuarão nosso trabalho, nossos sonhos, seus sonhos, dentro do Brasil, de São Paulo e do mundo inteiro".

Da banda original ficaram Sérgio Dias e o baterista Dinho Leme. A eles juntaram-se Vitor Trida, Fabio Recco, Simone Soul, Vinícius Junqueira, Henrique Peters e a nova vocalista, Bia Mendes (mulher de Fabio), substituindo Zélia Duncan, que decidiu retomar a carreira: "Ela acompanha a banda desde 1991, sempre nos bastidores. Às vezes não adianta você procurar uma coisa fora. A Bia é a pessoa ideal para estar conosco". Bia Mendes foi backing vocal da Rita Lee durante muito tempo, e diz ser uma honra ocupar o lugar que um dia foi dela.


Sérgio Dias quer transmitir o recado de que a melhor maneira de perpetuar um legado é voltar-se para a modernidade: "passamos um tempo dentro de nossos casulos preparando as novas músicas prometidas dois anos e meio atrás. Nós somos uma banda que precisa de músicas novas, precisamos respirar isso para sentirmos a vida! Ou trabalhamos com músicas que a gente sinta no momento que foram feitas para vocês, ou não terá o menor sentido. Nós não estamos aqui para tocar 'Caminhante Noturno' ou 'Balada do Louco', isso não faria o menor sentido".


Dinho acrescenta: "Temos as influências de 40 anos atrás, viemos de Beatles, daquela época. Vivemos aquele movimento cultural e artístico, temos essa base que vai continuar. Mas tem muita coisa nova. Acho essa música que nós fizemos bem simples perto das outras que a gente tem".


Para garantir esse ineditismo, Sérgio Dias parece ter um cuidado artesanal com todos os aspectos técnicos envolvidos: "Estamos fazendo sobretudo música. Graças a Deus meu estúdio é top de linha, construído à mão, cheio de facilidades".


Outra maneira de renovar o som da banda sem deixar de flertar com o passado foi fazer uma guitarra. A nova Kier mantém diversos elementos da clássica Regulus (que ele usou desde o início da banda), mas apresenta uma sonoridade nova, além do detalhe exótico de ter partes de ouro.


O novo disco tem muitas participações especiais, mas Sérgio Dias não quer falar mais do que já se sabe a respeito. "Vocês já tiveram uma música inédita hoje, depois de tanto tempo. Se eu contar mais coisas, não teremos novidades para quando o disco sair". Devendra Banhart participa dos vocais em "Mutantes Depois", e Tom Zé divide a autoria de várias das nove músicas do disco novo que já estão prontas.


Sobre o reencontro com o antigo parceiro (Tom Zé compôs "2001" para o disco de 1969), Sérgio Dias conta: "Agradeço muito por ter reencontrado Tom Zé na virada cultural passada, no Ipiranga. Tom Zé é gênio, e eu só falava de guitarra, eu nem sabia falar com ele, mas agora falamos uns absurdos juntos e é incrível; esse é um mutante de verdade! Quando nos encontramos no Ipiranga e começamos a trocar figurinha, rolou uma energia que eu nunca vi na vida! Eu pedi esse cara a Deus como parceiro. Aí ele fez uma música que é a coisa mais inacreditável da face da terra; diversas dessas músicas estarão no disco. Ter o respaldo dessa pessoa é divino, é uma pessoa cheia de fome e de novidades".


O disco de inéditas dos Mutantes fica pronto no final de junho e, segundo Sérgio Dias, sai com certeza ainda neste ano. Antes, você pode baixar gratuitamente a música "Mutantes Depois", clicando aqui. Sérgio diz não fazer downloads de músicas da internet, mas que resolveu lançar o novo single assim por curtição e pede para que cada fã que baixar a música faça uma doação a alguma instituição de caridade.

Letra da música:

Oh ma babe aonde você vai...
Agora que a onda Tropical já se foi...
Você é a semente que o mundo nos deu,
Você é a semente do mundo...

O ma babe o que irá fazer...
Ao chegar o dia em que um Mutante morrer...
Você é a semente jogada ao chão
Você é os mutantes depois...

Oh, E eu me pensei imortal...
Vejo que o tempo parou...
O Bruxo do luxo chorou...
Quando minha sombra passou...

Oh ma babe você é como nós...
Nada é impossível quando em você se crê...
São nossos filhos, irmãos e irmãs,
Vocês são as nossas sementes...

Oh ma babe venha para mim...
Com beijos muito loucos e abraços sem fim...
Eles disseram que eu enlouqueci...
Na balada do louco da noite...

Como é possível que o universo caiba dentro de um grão
De elétrons, neutrons, positrons...
Você e eu, Você é quem somos nós...

Oh ma babe o que irá fazer...
Ao chegar o dia em que um Mutante morrer
Você é a semente jogada ao chão
Você é os mutantes depois...

Burning it, Burning it, Burning it
Burning it, Burning it, Burning it
Burning it, Burning it, Burning it


http://www.mutantes.com

http://www.myspace.com/sergiodiasoficial

http://www.myspace.com/mutantesoficial




 
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