
No ano em que os Mutantes
completam 40 anos, Sérgio Dias apresenta a nova formação da banda, incluindo a
nova vocalista, lança sua guitarra e "Mutantes Depois", o primeiro
single inédito desde os anos 70. Em entrevista, fala da relação com Rita Lee e
Arnaldo Baptista, da necessidade de compor inéditas e da parceria com Tom Zé
nas músicas do disco novo, que sai ainda este ano. Por Marcos Donizetti

MUTANTES Depois
Marcos Donizetti
"Eu penso que tudo que pode dar certo, dará certo. É um
Murphy ao contrário". As palavras otimistas de Sérgio Dias na entrevista
coletiva que se seguiu à apresentação do novo single, “Mutantes Depois”, chegam
a surpreender. Otimismo autêntico, sincero, não fabricado em laboratório e
vendido em farmácia é coisa rara hoje em dia. Mas o discurso do Mutante é coerente, ainda
que muitos possam achá-lo ingênuo.
Em 1973 o Brasil não era um bom lugar para se estar. A ditadura vivia seu pior
momento. O próprio Sérgio relembra o absurdo da repressão vivido alguns anos
antes: "Não saiam do hotel porque vocês são a bola da vez, nos diziam.
Caetano e Gil acabavam de ser presos, e nós éramos os próximos". Naquele
ano, o flower power dos anos 60 já era passado distante, Rita Lee não estava
mais na banda e a gravadora não aceitava muito bem os rumos que eles tomavam.
Ainda assim, o disco O A e o Z, gravado ali e lançado apenas
em 1992, tinha uma música que dizia sermos todos "uma pessoa só"
(você também está cantando/ você também está tocando/ estamos aqui numa boa
pescando pessoas no mar) e outra onde o jovem profetiza cheio de otimismo que
"ainda vou transar com você" e "que talvez a nossa música não
tenha mais fim/ e talvez o fim de semana não tenha mais fim".
Sérgio Dias lutou ainda alguns anos para manter a banda viva, e não é
coincidência que o pocket show de apresentação da nova música, ocorrido no
último dia 24 de abril, no Teatro Municipal de São Paulo, tenha começado com
"Uma Pessoa Só", afinal o momento vivido hoje pela banda é muito
parecido com aquele da gravação de O A e o Z.
Rita Lee ainda está longe: "Tudo
o que ela disse no Fantástico está bem claro. Eu amo a Rita de coração, ela é
minha irmã, independente do que tenha dito. Acho que ela vive uma vida
completamente diferente da nossa, ela está vivendo outro caminho, maravilhoso.
Na época, quando nos reunimos, mandei um email pra ela. Quando fiz ‘Mutantes
Depois’, mandei a música pra ela, perguntei se ela queria escrever uma letra,
mas infelizmente ela não respondeu. Aí eu fiz a letra e foi bom, porque eu
tomei uma posição, e é uma tomada de posição de vocês também".
Arnaldo Baptista resolveu não participar mais dos Mutantes e
decidiu tocar outros projetos: "Por que ele saiu não vem ao caso. Pergunte
à Lucinha! [nota: Lucinha Barbosa, mulher de Arnaldo]. A gente quer mostrar o
que a gente fez, dar a cara a tapa, mostrar coisas bonitas, afinal somos os
Mutantes. Se ele quiser voltar, estamos de portas abertas, assim como para a
Rita também, e cada um faz o que quer".
E o mundo de hoje, está tão diferente assim do que era
naquele tempo? "Nós somos o resultado de um golpe de estado mundial. A
partir de 61 sofremos essa dominação absurda, depois em 64 um golpe de Estado
aqui, tudo muito terrível. Vocês sofreram um estupro incessante desde aquela
época (...), vocês hoje vivem o resultado disso, que é muito pior do que a
gente viveu. Hoje as pessoas não sustentam mais o olhar do outro, é uma
política do medo. Agora, estamos intelectualmente um pouco mais inteligentes,
na época não víamos tanta maldade. Mas hoje é uma necessidade olhar para seu
umbigo e saber de onde você veio e para onde você vai".
Interessante notar que o tema da canção inédita novamente remete à idéia de que
somos todos Mutantes. Se antes também estávamos cantando e éramos "as
pessoas pescadas no mar", hoje somos "as sementes jogadas ao chão",
os "Mutantes depois". Mas há uma diferença.
No passado o "fim de
semana não teria mais fim", mas agora Sérgio Dias pergunta o que faremos
"ao chegar o dia em que um Mutante morrer", e diz que devemos aceitar
um legado: "nós estamos aqui para algo que acreditamos ser o nosso futuro,
os Mutantes depois, o legado que deixamos para vocês. Nenhum de nós morreu, mas
e quando morrermos? A tocha estará com vocês, vocês serão responsáveis, vocês
continuarão nosso trabalho, nossos sonhos, seus sonhos, dentro do Brasil, de
São Paulo e do mundo inteiro".

Da banda original ficaram Sérgio Dias e o baterista Dinho
Leme. A eles juntaram-se Vitor Trida, Fabio Recco, Simone Soul, Vinícius
Junqueira, Henrique Peters e a nova vocalista, Bia Mendes (mulher de Fabio),
substituindo Zélia Duncan, que decidiu retomar a carreira: "Ela acompanha
a banda desde 1991, sempre nos bastidores. Às vezes não adianta você procurar
uma coisa fora. A Bia é a pessoa ideal para estar conosco". Bia Mendes foi
backing vocal da Rita Lee durante muito tempo, e diz ser uma honra ocupar o
lugar que um dia foi dela.
Sérgio Dias quer transmitir o recado de que a melhor maneira de perpetuar um
legado é voltar-se para a modernidade: "passamos um tempo dentro de nossos
casulos preparando as novas músicas prometidas dois anos e meio atrás. Nós
somos uma banda que precisa de músicas novas, precisamos respirar isso para
sentirmos a vida! Ou trabalhamos com músicas que a gente sinta no momento que
foram feitas para vocês, ou não terá o menor sentido. Nós não estamos aqui para
tocar 'Caminhante Noturno' ou 'Balada do Louco', isso não faria o menor
sentido".
Dinho acrescenta: "Temos as influências de 40 anos atrás,
viemos de Beatles, daquela época. Vivemos aquele movimento cultural e
artístico, temos essa base que vai continuar. Mas tem muita coisa nova. Acho
essa música que nós fizemos bem simples perto das outras que a gente tem".

Para garantir esse ineditismo, Sérgio Dias parece ter um
cuidado artesanal com todos os aspectos técnicos envolvidos: "Estamos
fazendo sobretudo música. Graças a Deus meu estúdio é top de linha, construído à
mão, cheio de facilidades".
Outra maneira de renovar o som da banda sem
deixar de flertar com o passado foi fazer uma guitarra. A nova
Kier mantém diversos elementos da clássica Regulus (que ele usou desde o
início da banda), mas apresenta uma sonoridade nova, além do detalhe exótico de
ter partes de ouro.
O novo disco tem muitas participações especiais, mas Sérgio Dias não quer falar
mais do que já se sabe a respeito. "Vocês já tiveram uma música inédita
hoje, depois de tanto tempo. Se eu contar mais coisas, não teremos novidades
para quando o disco sair". Devendra
Banhart participa dos vocais em "Mutantes Depois", e Tom Zé
divide a autoria de várias das nove músicas do disco novo que já estão prontas.
Sobre o reencontro com o antigo parceiro (Tom Zé compôs
"2001" para o disco de 1969), Sérgio Dias conta: "Agradeço muito
por ter reencontrado Tom Zé na virada cultural passada, no Ipiranga. Tom Zé é
gênio, e eu só falava de guitarra, eu nem sabia falar com ele, mas agora falamos
uns absurdos juntos e é incrível; esse é um mutante de verdade! Quando nos
encontramos no Ipiranga e começamos a trocar figurinha, rolou uma energia que
eu nunca vi na vida! Eu pedi esse cara a Deus como parceiro. Aí ele fez uma
música que é a coisa mais inacreditável da face da terra; diversas dessas
músicas estarão no disco. Ter o respaldo dessa pessoa é divino, é uma pessoa
cheia de fome e de novidades".
O disco de inéditas dos Mutantes fica pronto no final de junho e, segundo
Sérgio Dias, sai com certeza ainda neste ano. Antes, você pode baixar
gratuitamente a música "Mutantes Depois", clicando aqui. Sérgio diz não fazer
downloads de músicas da internet, mas que resolveu lançar o novo single assim
por curtição e pede para que cada fã que baixar a música faça uma doação a
alguma instituição de caridade.
Letra da música:
Oh ma babe aonde você vai...
Agora que a onda Tropical já se foi...
Você é a semente que o mundo nos deu,
Você é a semente do mundo...
O ma babe o que irá fazer...
Ao chegar o dia em que um Mutante morrer...
Você é a semente jogada ao chão
Você é os mutantes depois...
Oh, E eu me pensei imortal...
Vejo que o tempo parou...
O Bruxo do luxo chorou...
Quando minha sombra passou...
Oh ma babe você é como nós...
Nada é impossível quando em você se crê...
São nossos filhos, irmãos e irmãs,
Vocês são as nossas sementes...
Oh ma babe venha para mim...
Com beijos muito loucos e abraços sem fim...
Eles disseram que eu enlouqueci...
Na balada do louco da noite...
Como é possível que o universo caiba dentro de um grão
De elétrons, neutrons, positrons...
Você e eu, Você é quem somos nós...
Oh ma babe o que irá fazer...
Ao chegar o dia em que um Mutante morrer
Você é a semente jogada ao chão
Você é os mutantes depois...
Burning it, Burning it, Burning it
Burning it, Burning it, Burning it
Burning it, Burning it, Burning it
http://www.mutantes.com
http://www.myspace.com/sergiodiasoficial
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