
Diários Saatânicos – ou como deixei de ser pateta. Capítulo 1. "Eu sou o caminho, a verdade e a vida". Jesus
Cristo – interessa o versículo? É o que tá num desses evangelhos, escrito a
oito mãos – no mínimo. Dizem por aí, só Ele salva. Ponto final. Sem próximo
capítulo – e cuidado pra não ficar de castigo na hora do recreio. Por Caco Ishak

MADAME SAATAN
Diários Saatânicos –
ou como deixei de ser pateta
Capítulo 1
Caco Ishak
Fotos Renato Reis
Só Cristo salva... no pegapacapá, que eu quero ver. Quando
te jogam na lata de lixo e tu não pode fazer nada além de procurar um palito de
picolé premiado lá dentro, bem no fundo. Na certeza de que não vai encontrar
porra nenhuma. Só pra ter o que fazer enquanto os feladasputa não se cansam de
rir e vão embora. Coisa de loser.
Tipo ir prum festival – depois que cresce, fica revoltado e
começa a escutar essas canções do Capiroto de trás pra frente, se vestir de
preto e não tomar banho nos três dias de preparação pro festival – pra um
qualquer, entornar minhoca e desbundar total aos pés de uma barraca de selo
independente, enrolado a una bujudita de duelo ao invés de estar assistindo ao
show rolando.
Bananada 2005. Goiânia Rock City – dos sertanejos e
evangélicos (cristãos ou não) também. Daí o sossego logo ter acabado e os caras
estarem ali de novo, me cercando e rindo. Tempos bons esses do colégio, que um
dia haviam de voltar.
- Ê, rapá! Ulhesse doido!
Zé Mário. Um banger feioso que se empoleirava com os gordos,
orelhudos, judeus, estuprados e bustelentos no intervalo entre as aulas nas
escadinhas em frente ao banheiro feminino. Normal, portanto, minha placidez ao
reconhecê-lo - ainda o mesmo sósia do Zezé di Camargo marcado pela varíola - em
pleno cerrado. A banda perdida em questão era a dele.
Tinham acabado de sair do palco – ele e um outro cabeludo.
Só que esse, mais pro Sean Connery – também guitarrista. Dei um boa noite geral
pra rapeize (goles foram oferecidos) e fui dormir. Não deixei muita opção pro
Zé, coitado - devem ter se olhado arqueando as sobrancelhas. Ajudado por The Ed,
me colocaram sentado num canto menos cheio de gente.
- Tá ligado que tem um cara lá de Belém cobrindo isso pelo
Rock Press? Um tal de Caco – chegou dizendo uma voz pastosa. No que me
apontaram, destruído, pro fotógrafo Renato Reis. Cheio de mais do mesmo. Dum
mesmo meio que novo. Se uns despirocavam, alguém tinha que trabalhar. E
carregava no peito os registros da primeira guinada por outras regiões após a
"Batalha de Bandas" em Macapá – e desde então - daquela que seria
conhecida, pelos séculos e séculos, como Madame Saatan.
Continua
Caco Ishak, 27, jornalista, autor do livro má reputação. Dizem que o segundo - 0800-6669 - está quase pronto e que começou também a escrever seu primeiro romance. Dizem que é possível encontrá-lo em seu blog, ciao cretini www.verbeatblogs.org/cacoishak. Caco
Ishak acha que as pessoas falam demais.