Entrevistas: Cactus Cream / João Eduardo Veiga
Quarta-feira, 16 de Maio de 2007 (1:11:42)
|
|
Após rodar o país e entrar na MTV com o disco Elefante Be Bop (2004), que fez grudar na cabeça de um monte de gente canções ao mesmo tempo barulhentas e muito melódicas, como “Não me Roube o Silêncio” e “Antes e Depois”, o Cactus Cream ressurge reformulado no novo EP Disco Punk Drunk (Piesces Records). Nesta entrevista, Paulo Metello, vocalista e guitarrista (não seria exagero dizer frontman), conta as boas novas. Por João Eduardo Veiga
CACTUS CREAM
Rockpopnoise
João Eduardo Veiga
Em uma década de existência, a banda já passou por inúmeras – melhor nem tentar contar nos dedos – formações, mas Paulo nunca abandonou o barco. Ao seu lado e de Arthur Brasil (baixo), remanescentes do grupo mais recente, estão agora Flávio Abbês (guitarra) e Mário E. (bateria). As influências – falamos de Echo and the Bunnymen, Jesus and Mary Chain, Pixies – continuam lá, mas Paulo garante que a nova versão do Cactus Cream, pronta para reestrear nos palcos cariocas, está no caminho da mistura perfeita entre o pop e o noise – desta vez com doses de eletrônica um pouquinho mais caprichadas.
Defina o Cactus Cream, sem economizar palavras.
Cactus Cream é uma banda que gosta de transitar entre as melodias pop e o rock-noise-experimental, com toques de sons eletrônicos retrô e do pós-punk. Já nos definiram como “rockpopnoise” – isso ajuda, mas só ouvindo o som para entender. Fazemos isso há quase dez anos e as pessoas falam que ainda soa atual. Acho ótimo, mas só queremos fazer nosso som da melhor forma possível, somos loucos por fazer música. Acho que a banda se caracteriza também pelo vigor e entrega nos palcos, sempre tentamos agir da forma mais espontânea possível. Já fizemos muito barulho por aí em apresentações fortes e algumas vezes caóticas, mas o foco agora está mais na música. Sem perder a energia e o peso característicos, claro.
Fale um pouco da nova formação.
Com a formação anterior o som já não estava fluindo, começaram a surgir alguns conflitos de ego. O clima foi se arrastando assim até que, no meio do ano passado, num ensaio em Copacabana, resolvemos nos separar por um tempo. Foi um final relativamente pacífico, a amizade continuou. Depois de alguns meses resolvi ligar para o Arthur e ver se poderíamos gravar algumas novas composições – coisas que eu já vinha desenvolvendo em meu pequeno e trash estúdio caseiro, o Surreal Studio. Desandei a compor, quase 40 canções em dois meses, e registrei tudo num CD-R. Ele gostou e começamos a pré-produção do que se tornaria mais tarde o mais recente trabalho do Cactus Cream, o EP Disco Punk Drunk. Fomos gravando até termos bastante material para levar ao estúdio Estação.
Chamamos então mais uma vez nosso amigo e grande guitarrista Flávio Abbês (Abbes e ex-MiM), que já havia participado de outras fases da banda. E logo encontramos o baterista e produtor Mário E., que se identificou de imediato com as novas músicas e se ofereceu para tocar bateria conosco. Assim estávamos com uma nova formação e começamos a fazer uns ensaios para ver o que iria acontecer. O primeiro depois de meses foi muito empolgante, acho que o som nunca havia fluido tanto. Tudo dava certo, todos ficaram muito animados. Desde então temos ensaiado com regularidade e estamos fechando algumas datas, prestes a fazer um show com a nova formação. O clima está muito bom.
O que o novo EP Disco Punk Drunk apresenta de novo ao som do Cactus Cream? E qual a essência que permanecerá para sempre?
O novo EP traz algumas influências de música eletrônica, que ficaram mais claras que nos outros trabalhos. A música “Disco Punk”, por exemplo, tem até um caráter de pista, mas ao mesmo tempo dá para sentir uma crueza rock, com microfonias e guitarras pesadas. No decorrer do EP é possível notar muitas características do som Cactus Cream clássico. Acho que é bem Cactus Cream. No fundo, as melodias, as letras e as influências são basicamente as mesmas, só que agora aparece esse elemento dançante em algumas faixas, que pode ser visto até como uma certa referência ao CD Automatic, do Jesus and Mary Chain, e talvez também como reflexo de algumas bandas que estive ouvindo ultimamente, como Kraftwerk, New Order, Rapture e CSS. A essência que permanece é a da temática das letras, o gosto pela melodia pop, os arranjos ácidos e espaciais, as microfonias, as influências do pós-punk – acho que isso nunca vai faltar num CD do Cactus Cream.
Como é o seu processo de composição?
No geral componho as músicas no violão e coloco uma melodia guia em cima da harmonia. A partir daí vou montando a letra aos poucos e tendo idéias para o ritmo e os arranjos. Com isso esboçado, gravo um esqueleto no computador e levo ao estúdio caseiro do Arthur. Lá, vamos desenvolvendo a idéia e dando corpo à composição. Depois levamos a música ao estúdio de ensaio e vemos como flui com a banda toda ao vivo. Em outros casos criamos a música na hora, com todos tocando juntos. Isso é mais raro, mas vem acontecendo com mais freqüência ultimamente e é muito bom.
O que mais te influencia na hora de escrever as letras?
Várias coisas: um CD, um livro, um filme, relacionamentos, televisão, um cachorro na praça, uma ressaca, uma noitada, psicodelia e até – e não raro – um sonho. Na verdade tudo o que estou vivendo no momento, somado a alguma ficção, me influencia. Todas as idéias de letra devem se encaixar bem nas melodias, para que forme um conjunto mais coeso e harmonioso. Isso às vezes dá um pouco de trabalho, mas acho fundamental para a coisa ficar legal. Na maioria dos casos boa parte da letra vem surgindo junto com a melodia. Recentemente fiz uma música que foi criada durante uma noite de insônia. A música se chama “Panorama”, a letra foi sendo escrita durante as famigeradas horas mal dormidas.
O Cactus Cream ficou famoso pelas performances incendiárias, com instrumentos voando e músicos rolando pelo chão – com muito barulho de distorção ao fundo. A fama procede?
Acho que isso é só uma parte da história. Em um determinado momento isso aconteceu, sim, foi uma fase em que estávamos empolgados e exagerando na birita. Algumas vezes isso era genial, em outras era um caos danado que comprometia em parte os shows. Hoje estamos mais focados na música. Acredito que a energia que estamos colocando vai impressionar muito. O som está uma massa impactante e fluida. Acho também que existe uma segurança maior, todos na banda sabem o que fazer com mais naturalidade. A tendência é que as performances fiquem cada vez mais incendiárias, só que de uma forma diferente, com o som fluindo de verdade e as músicas acontecendo cada vez mais. Queremos tocar além do underground – na Lua, quem sabe? Vamos ver.
Qual foi o melhor show do Cactus Cream? E o pior?
Um dos nossos melhores shows foi no Super Mosh! Festival (Tributo aos Pixies), no Ballroom, em 2004. Era um evento da revista Mosh! em que as bandas tocavam músicas próprias e covers do Pixies. O som estava excelente e tocamos com muita raça. Tudo funcionou maravilhosamente bem, o show foi bem rock. As pessoas gostaram muito e vieram falar com a gente. Foi uma noite bem divertida. E aquele show da gravação do clipe da música “Antes e Depois”, no Espaço Constituição, também foi ótimo, bem intenso.
Acho que o pior foi aquele na Lapases, na Lapa. Eu estava totalmente sem voz, devido a uma gripe, e piorei as coisas bebendo doses de conhaque com gengibre achando que a situação iria melhorar. Obviamente não deu muito certo e a coisa foi bem caótica e um pouco absurda, com todos meio perdidos, culminando comigo deitado no palco. Mas tiveram uns malucos que gostaram da performance doida. Que loucura! Para falar a verdade, nem me lembro muito bem. Hoje achamos até engraçado, mas no dia foi muito estranho. Coisa do passado.
Como seria o show dos seus sonhos?
Poderia ser no Canecão, com a casa lotada de amigos e fãs, com o som impecável. A banda estaria se divertindo e tocando muito bem, com todos cantando as músicas e o som fluindo de verdade. Bom, isso poderia ser também em algum palco de Londres ou Nova York. Se é para sonhar, vamos sonhar direito, né? Isso seria – será – demais!
O que você acha da cena roqueira brasileira e, especificamente, a do Rio de Janeiro? Que bandas destacaria?
A cena roqueira vem crescendo muito ultimamente. Desde o boom do dito “novo rock”, em 2001, que catapultou bandas como Strokes e outras, as pessoas começaram a prestar mais atenção ao rock alternativo. Várias bandas, selos e festivais começaram a surgir e a se multiplicar em cada canto do Brasil, e, com a ajuda das novas tecnologias e da internet, se organizaram e aqueceram o setor da música alternativa nacional. É claro que, com essa quantidade toda de bandas, há sempre as de qualidade e as menos inspiradas, também. Gosto muito de algumas bandas que conheci nos últimos anos, como Charme Chulo, Nervoso & Os Calmantes, Moptop, CSS, Noitibó, Thee Butchers Orchestra, Abbes e Alice, entre outras. Todas com ótimas músicas, shows legais e CDs inspirados. Trabalhos que seguem mais a vontade real de fazer um som mais autoral e verdadeiro do que o hype. Por outro lado, muitas bandas também se preocupam demais com o visual e se esquecem da música. Não me entenda mal, o estilo é importantíssimo, mas a música é fundamental.
E os espaços para shows?
Aqui no Rio temos alguns lugares para fazer um bom show, mas acho que ainda são poucos, frente à quantidade de boas bandas. Faltam espaços intermediários: ou você toca numa casa enorme com um custo absurdo ou em buracos sem muita estrutura, remuneração ou divulgação. De qualquer forma, sinto que as coisas vêm melhorando aos poucos, mas falta um apoio maior.
Sem boas rádios e sem clipes na MTV, qual o papel da internet da divulgação de bandas novas? E como o Cactus Cream usufrui dela?
Isso está realmente complicado. A televisão e o rádio ainda são meios de comunicação bem fortes e abrangentes. Com a MTV não exibindo mais muitos clipes e com a deficiência das rádios rock, acho que a internet vem tendo um papel cada vez mais importante na divulgação das bandas. Estamos tentando usar ao máximo essa ferramenta: site, Orkut, YouTube, MySpace, informativos em FTP (Cactus News) – tudo o que ajude a divulgar mais a nossa música e a fazer contato com o público e outras bandas. Apesar das dificuldades, ainda procuramos aproveitar a televisão e o rádio o máximo possível, quando eventualmente conseguimos esse espaço.
Vários clássicos do Cactus Cream ao vivo, como "Pequena Sinfonia de Bolso", ainda não apareceram em disco. Há planos para um novo CD cheio?
Na verdade vamos mesmo lançar um disco cheio nos próximos meses, ou até mesmo dois CDs. Isso porque gostaríamos de lançar um CD cheio do EP Pequena Sinfonia de Bolso, com essa canção que você citou e da qual gostamos muito, e outro do EP Disco Punk Drunk, com todas as músicas mais recentes. Vamos resolver isso em breve, a Pisces Records mostrou interesse nesse lançamento também. O selo é muito legal e tem umas bandas ótimas no cast.
Como foi participar do tributo ao Ronnie Von?
Gostamos muito. Nossa amiga Ana Viola fez a ponte entre a gente e a Flávia Durante, que estava organizando. Achamos a idéia bem legal e pertinente. Já conhecíamos alguma coisa da época psicodélica do trabalho dele, mas com essa oportunidade pudemos nos aprofundar mais nessa fase maluca e criativa. A música que escolhemos foi “1900 e Além”, que já era bem psicodélica. A letra fala de viagens no tempo e abdução, uma piração só. A música, que já era ácida na versão do Ronnie Von, ficou quase demente na nossa. Com baixo distorcido, vários efeitos de guitarra e teclado, voz processada e bateria espacial, muitos falaram que foi a coisa mais maluca que já gravamos. Fizemos uma releitura mais lo-fi/noise da canção. O resultado ficou interessante e pode ser escutado, juntamente com outras várias bandas legais, no site do tributo (www.ronnievon.com).
Como será o ano de 2007 para o Cactus Cream?
O ano de 2007 parece ter começado muito bem para a gente. Completamos nosso novo EP e vamos lançá-lo em breve. Remontamos a banda e nunca estivemos tão afiados. Vamos relançar o CD Elefante Be Bop remasterizado e com shows de lançamento pelo Brasil através da Pisces Records. Vamos ainda efetivar a parceria com a produtora Intervalo e realizar a trilha do desenho animado Dogmons. E nosso clipe em animação da música “Ponto de Fuga“ está quase pronto. Acho que é o momento para continuar trabalhando duro e evoluindo como banda, pois tenho certeza de que agora estamos novamente no caminho certo. E as oportunidades estão aparecendo.
|
| |
|