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rip: Morre James Brown
Segunda-feira, 25 de Dezembro de 2006 (14:49:16)

 

James Brown morre aos 73 anos. Tive de reler mais de uma vez o anúncio do fim de um gigante, um homem que sempre foi referência absoluta para mim e para o mundo. Para quem dedica a vida à soul music, a infame manchete tem efeito de bomba atômica: a devastação é total e a ação maléfica vai permanecer por muitos anos. Por zeca azevedo



James Brown Sings out of Sight




Mesmo a metáfora da bomba atômica parece vazia para mim diante da perda do homem que foi, sem sombra de dúvida, uma das maiores forças culturais do século passado. A influência de Mr. Dynamite sobre a música e sobre a dinâmica das relações raciais é imensurável. Ao trazer a África indiluída de volta à música pop, revolucionou (mesmo) o cenário musical e terminou por influenciar Miles Davis e toda a cena do jazz, além de informar a música pop africana e até a brasileira (Jorge Ben, Tim Maia e Gilberto Gil são as referências mais óbvias aqui, mas até Roberto e Erasmo ouviam James Brown durante a fase "soul" que tiveram, no fim dos 60).



Isso sem falar na cena de R&B, da qual ele era o líder, o número 1. "Say it loud, I'm Black and I'm Proud" é mais do que uma canção, é o grito que passou muito tempo preso na garganta de milhões e saiu de lá para a liberdade por sua voz rascante e poderosa. Poucas canções na história tiveram impacto tão profundo quanto esta. O resultado pode ser percebido até hoje: teríamos hip hop sem James Brown? Nem cabe perguntar isso, pois se não tivéssemos o soul man, a inexistência do hip hop seria apenas uma de muitas perdas irreparáveis. A maior dessas perdas seria a do próprio JB e de sua música irresistível e revolucionária.


O Godfather of Soul tinha em si e na sua música valor absoluto. As canções ritmadas que ele gravou há quarenta anos ainda soam perfeitas e atuais, verdadeiros milagres do design sonoro. O rigor formal é assombroso. Não há NADA fora de lugar nas suas melhores gravações (que são muitas mesmo).


A economia musical do funk praticado por ele e seus músicos (todos excepcionais e todos sob o comando férreo do James) é aparente: a intrincada malha rítmica de suas gravações rompeu com muitos dos procedimentos musicais estabelecidos e criou um novo paradigma musical. O ritmo é senhor absoluto. Brown sabia disso como ninguém, pois foi o senhor absoluto do ritmo. Podemos tranqüilamente dizer que havia música pop antes e depois de James Brown.


Sua importância como símbolo das conquistas dos afro-americanos na luta por justiça e por liberdade nos EUA é amplamente reconhecida. Em um dos momentos mais críticos dos conflitos raciais nos EUA nos anos 60, as horas que sucederam o assassinato de Martin Luther King, a presença de James Brown em um show transmitido pela TV "segurou" a população afro-americana da cidade de Boston em casa, impedindo o alastramento dos conflitos e a conseqüente destruição e perda humana. A transmissão de seu show pela TV, que não estava originalmente programada, foi feita justamente para conter a revolta da população negra. O resultado? Paz nos guetos de Boston.



Era um herói cultural, mas não imaculado. Politicamente, era conservador, apoiando por toda a vida o Partido Republicano. O que parece uma contradição é, creio, um paradoxo. Mr D sempre foi uma figura de força e de poder. Comandava seus músicos, seu staff e seus negócios com punhos de ferro. A palavra dele era final e definitiva.


E o homem não dava sossego para ninguém: até durante os shows, cantando e dançando freneticamente, ele fiscalizava os músicos que cometiam erros para aplicar-lhes multas. James Brown acreditava no sonho americano de sucesso para qualquer um que fosse determinado a vencer. Ele tomava a si mesmo como exemplo, pois teve infância pobre e passou pela cadeia antes de investir na carreira musical.


Embora nunca tenha deixado de ser um ícone (e esta palavra não pode ser aplicada para qualquer músico, como se costuma fazer por aí), James Brown experimentou um período de relativo ostracismo a partir da segunda metade dos anos 70, com a ascensão da disco music (que nasceu do funk de James Brown). Chegou a lançar um disco em que se proclamava "The original disco man" para tentar manter-se viável comercialmente. Seus discos da segunda metade dos 70 em diante podem ter recebido menos atenção que os mais antigos, mas ele permaneceu fazendo shows até o fim da vida.



E as apresentações ao vivo de James Brown são a matéria da qual se fazem os sonhos e as lendas. O homem exercia um poder tremendo sobre todo e qualquer tipo de audiência. Seus shows tinham uma intensidade que poucos grupos de músicos puderam ou podem igualar. E o homem rodopiava e dançava pelo palco furiosamente, com precisão de bailarino e vigor de lutador de boxe. Criou uma escola de performance que continua a receber alunos até hoje (que jamais vão superar o mestre).


Infelizmente, Brown veio poucas vezes ao Brasil: uma vez na segunda metade dos anos 70 (lembro da foto dele abraçando o Sidney Magal na revista Pop), outras vezes nos anos 90. Não estou fazendo pesquisa agora, estou escrevendo espontaneamente. Algumas informações deste texto movido à paixão bruta podem estar imprecisas. Peço desculpas, mas neste momento não consigo ser metódico e organizado.


Quero partir logo para a audição dos meus (muitos) discos do James Brown e dos J.B.'s, a maior e melhor banda de funk de todos os tempos. Sim, pois além dos próprios discos, James Brown foi responsável também por discos de outros artistas: J.B.'s, Fred Wesley, Maceo Parker, Lyn Collins, Marva Whitney, Dee Felice Trio, Vicki Anderson, Hank Ballard e outros (recomendo a série de três CDs James Brown's Funky People como introdução às gravações de outros artistas produzidas por JB).


É um legado musical incomparável. Para o mundo do R&B e da música negra, a morte de James Brown só encontra equivalente na morte de Ray Charles, Miles Davis, Billie Holiday, Louis Armstrong e Bob Marley, todos eles figuras que remodelaram dramaticamente a música e a cultura do século XX.


A essa altura, nem sei mais o que dizer. Cheguei a comprar a nova edição da Rolling Stone brasileira apenas por causa da matéria sobre o James Brown, que ainda não li por conta das atribulações provocadas pela internação da minha mãe no hospital (a revista está lá no quarto de hospital dela agora). Esta matéria e tudo mais que se refere ao James Brown ganhou novo significado a partir de hoje. É tudo retrospectiva, passado, pois o homem se foi. Ainda não vi nenhuma reportagem de TV sobre a morte do pantera negra do soul; sequer li o texto da reportagem do site do Terra sobre a morte do James Brown. Só a manchete, aquela frase curta e certeira, ecoa na minha mente neste momento e me leva a escrever compulsivamente.



Imagino que muitas reportagens vão destacar as confusões de James Brown com a polícia, que começaram quando o poderoso chefão chegou à terceira idade. Sempre interpretei esses problemas com as drogas e com a polícia como uma reação violenta à decadência física e artística (as performances de palco já não eram as mesmas do passado). James Brown não queria e nem sabia envelhecer. A potência física era, para ele, sinônimo de poder. James Brown era o poder.


O ocaso da lenda (este pode ser chamado assim) incluiu a publicação de mugshots (fotos da polícia no momento da prisão) do homem totalmente descomposto, despossuído de si, sem poder algum. Imagino também que ele gostaria de ter tido uma morte heróica, diante do público que o adorava, fulminado no palco por uma ataque cardíaco.


Pode ser apenas fruto da minha imaginação, sempre mais conectada com a fantasia do que com a realidade do mundo. De todo modo, a realidade hoje esmaga a imaginação: o homem morreu. Bandeiras à meio-mastro nos corações e mentes de todos os que dançaram ao som do mestre e que continuarão a reverenciar seu legado musical e pessoal.


zeca azevedo (de luto)

 
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Re: Morre James Brown RIP / Zeca Azevedo (Pontos: 1)
por mr_eddy em Segunda-feira, 29 de Janeiro de 2007 (19:02:21)
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Belíssimo texto. Não dava para escrever sobre a morte do mito em outras palavras. Pena que, no geral, a cobertura tenha sido pífia. Parece que morreu o 50 Cent ou outro zé mané... E olha que Mr. Dynamite iria se apresentar no reveillon! Com ingressos esgotados e tudo. Uma perda lamentável...mas fica o legado.



Re: Morre James Brown RIP / Zeca Azevedo (Pontos: 1)
por rafaelpesce em Quarta-feira, 14 de Março de 2007 (20:21:30)
(Informações do usuário | Enviar uma mensagem)
Grande Zeca! na nova ediçao da Freakium www.freakium.com [www.freakium.com] tem uma matéria com o Donny Hathaway, acho que irás gostar! abraçao!



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