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Matérias: New Order / Marco Antonio Bart
Sexta-feira, 8 de Dezembro de 2006 (15:36:03)


A história do New Order começou no dia 18 de maio de 1980 - data do suicídio de Ian Curtis, vocalista do Joy Division. O grupo se preparava para sua primeira turnê norte-americana, e parecia ter um futuro brilhante à frente. Depois do choque com a tragédia, Bernard Albrecht, Peter Hook e Stephen Morris resolveram seguir adiante, mas já como uma nova banda.
Por Marco Antonio Bartbosa





New Order

Marco Antonio Bartbosa


Continuando afiliado à Factory Records, em julho de 1980 o trio estreou nos palcos, fazendo alguns shows sem muita divulgação no Norte da Inglaterra e cumprindo (já como New Order) algumas datas da turnê cancelada do Joy Division.


Bernard - que resolveu trocar seu nome de Albrecht para Sumner, o sobrenome de solteira de sua mãe - assumiu, relutantemente, os vocais, depois de alguns ensaios com Morris e Hook cantando. Ele também seguiria como letrista principal.

O nome do novo grupo foi sugerido por Rob Gretton (empresário do JD e que continuaria com o New Order até sua morte, em 1999). Gretton se inspirou num artigo de jornal que falava da "Nova ordem do povo de Kampuchea", um país do Sudeste Asiático. O nome parecia adequado para um grupo que estava buscando uma nova direção depois de um tremendo baque.


Curiosamente, New Order foi o nome escolhido pelos membros remanescentes dos Stooges, quando tentaram decolar sozinhos, sem Iggy Pop, nos anos 70. É bem provável que Albrecht, Hook e Morris, grandes fãs de Iggy, tivessem conhecimento do grupo. Outros nomes sugeridos foram Sunshine Valley Dance Band, The Eternal (nome de uma música do JD) e, como piada, Stevie and The JDs (na época em que Morris assumiu os vocais do grupo). Como já havia acontecido com o Joy Division, o nome New Order rendeu ao trio suspeitas de simpatias com o neonazismo - terminantemente negadas, sempre.



Na volta para a Inglaterra, ainda em 1980, a formação do New Order foi completada com a adesão de Gillian Gilbert, a jovem namorada de Stephen Morris. Rob Gretton foi quem sugeriu que a moça entrasse no grupo, pois - nas palavras de Stephen - "procurávamos alguém que soubesse tocar ainda menos que nós". Gilliam entrou para tocar teclados e eventualmente guitarra. Isso foi providencial, pois Bernard ainda achava muito difícil tocar e cantar ao mesmo tempo.

Em março de 1981, a Factory soltou o primeiro single do New Order, composto por duas músicas remanescentes do Joy Division: "Ceremony" e "In a Lonely Place". O single tinha sido gravado apenas por Sumner, Hook e Morris, durante a turnê nos EUA, e meses mais tarde seria relançado (com uma nova versão de "Ceremony", já com Gillian na segunda guitarra).


Enquanto o quarteto seguia fazendo shows pelo Reino Unido, tratava de trabalhar no primeiro álbum, Movement, produzido pelo mesmo Martin Hannett que gravou os discos do Joy Division. O disco foi lançado em setembro de 1981.

Tanto "Ceremony"/ "In a Lonely Place" quanto o álbum Movement mostravam um New Order ainda subjugado pela sombra do Joy Division. Canções como "Truth", "Senses" e "Doubts Even Here" tinham vocais soturnos, melodias sincopadas e sombrias, e uma sonoridade ainda muito ligada ao som do Joy.


A surpresa maior foi "Dreams Never End" - com Peter Hook nos vocais - que trazia uma pique mais pop. Apesar de conseguir relativo sucesso de vendas, o disco foi mal recebido pela crítica. O álbum marcou o fim do relacionamento do grupo com Martin Hannett; descontente com o resultado das gravações, o quarteto chegou até a pensar em refazer todo o disco, mas o custo seria proibitivo.

Entretanto, o mesmo Hannett também produziu o single "Everything's Gone Green", gravado ao mesmo tempo que Movement, mas que trazia um som bem diferente - já com o uso de sintetizadores e batidas programadas. O single, lançado ainda em 1981, dava pistas do interesse crescente do grupo pela cena eletrônica nova-iorquina (com o então nascente electro-funk de Africa Bambaataa, e o também engatinhante hip hop) e pelo technopop do Kraftwerk (que já influenciara o Joy Division também). Inesperadamente, "Everything's Gone Green" tornou-se um hit nas pistas de dança americanas, mesmo sem conseguir grande sucesso nas paradas.


O New Order seguiu em 1982 fazendo sua primeira turnê européia, na qual cristalizaram sua imagem de "grupo difícil". Nunca tocavam mais do que quarenta e cinco minutos, não davam bis (que consideravam "insultos à paciência do público") e nem aceitavam pedidos de músicas - muito menos se fossem canções do Joy Division. Naquele ano, o grupo só lançaria um único single, o suficiente para redefinir sua carreira: de depressivos herdeiros do sombrio legado de Ian Curtis para um grupo pop e luminoso.


"Temptation" tinha uma melodia perfeita (incluindo, para horror dos fãs puristas do JD, um refrão!), uma batida dançante e misturava guitarras com linhas de sintetizadores. Aclamado pela crítica, o compacto também fez sucesso nas casas noturnas, deixando claro o potencial do NO para o pop dançante.

Interessados no cenário pós-disco da noite nova-iorquina, o quarteto amigou-se com produtores e artistas da cena eletrônica americana, e voltou para Manchester cheio de idéias - a ponto de topar abrir, junto a Tony Wilson (da Factory) sua própria boate, o Hacienda. O clube existe até hoje, tendo tido seu auge de popularidade na época da acid house, em 1988-89 - e até hoje o NO é sócio da casa.


O ano de 1983 foi crucial para que o New Order se transformasse, ao mesmo tempo, na mais influente banda a unir rock e música eletrônica e também o mais importante grupo independente dos anos 80. O quarto single da banda, "Blue Monday", acabou se tornando o elo perdido entre os primórdios do pop sintetizado (Kraftwerk) e o rock da década de 80, e é possivelmente a canção que mais influenciou o cenário eletrônico da época - dos criadores do techno e da house em Detroit, aos DJs ingleses que inventaram a acid house no fim dos anos 80.


O gozado é que a música nasceu de uma experiência/brincadeira que Stephen Morris estava fazendo com uma nova bateria eletrônica... O vocal "deadpan" de Bernard e o baixão agressivo de Hook, marca registrada do grupo, se mesclavam de forma surpreendente aos beats e aos timbres sintéticos fornecidos por Gillian. A "brincadeira" chacoalhou pistas de dança nos dois lados do Atlântico e até hoje permancece como o single de 12 polegadas (do tamanho de um LP normal, próprio para o mercado de DJs) mais vendido da história, com mais de três milhões de cópias passadas adiante.

As reações a "Blue Monday" foram ambíguas. Ao mesmo tempo em que a moçada clubber caiu de boca no disco e elegeu o New Order como a sensação da hora, a comunidade indie inglesa torceu o nariz. Dance music era palavrão para os filhotes do pós-punk, e alguns antigos fãs do JD se rasgaram de raiva ao ver o grupo se dando bem com um som "alegre" e "eletrônico". Para complicar tudo, o New Order não tinha mudado sua postura pública em relação aos tempos do JD.


Continuavam avessos à superexposição, dando poucas entrevistas e mantendo uma imagem sóbria, misteriosa ("Blue Monday", por exemplo, tinha uma capa toda preta, imitando uma embalagem de disquete de computador, sem qualquer crédito à banda). A fidelidade à gravadora Factory também tornou-se uma marca do grupo, que insistia em permanecer independente apesar do sucesso que batia à sua porta.

Ainda em 1983, o grupo lançou Power Corruption and Lies, seu segundo álbum, e o primeiro (quase) completamente livre da influência do Joy Division. Os temas soturnos das letras cederam lugar a observações mais informais e irônicas; as melodias estavam cada vez mais redondas; a voz de Barney, afinal mais confiante, tinha sido puxada para o primeiro plano na mixagem; e o uso de sintetizadores dominava os arranjos.


Músicas como "Age of Consent" e "586" eram feitas de encomenda para a dança, mas a banda também arriscava uma belíssima balada eletrônica ("Your Silent Face", inspirada abertamente na melodia de "Europe Endless", do Kraftwerk) e passagens mais soturnas e "dark" (a sofrida "We All Stand").

A incursão do New Order ao território inexplorado da dance music não se esgotaria apenas em "Blue Monday". Ainda em 1983 o grupo se juntaria ao produtor nova-iorquino Arthur Baker para compor e produzir "Confusion", outro hit mundial, fundindo o estilo melódico do grupo com uma intoxicante base electro-funk. Junto a Baker, o quarteto ainda faria outra canção, completamente diferente - "Thieves Like Us", canção romântica movida a doces sintetizadores.

Na turnê feita para promover Power Corruption and Lies, o New Order finalmente começou a tocar uma ou outra música do Joy Division (como "Love Will Tear Us Apart" e "Atmosphere"). A longa excursão manteria os rapazes longe da grande mídia, preparando-se para gravar seu terceiro álbum - o grupo já era notoriamente lento no estúdio, fazendo questão de deter-se nos mínimos detalhes.


O álbum que surgiria em 1985, Low-Life, era um grande passo adiante em relação a Power Corruption and Lies, e colocaria o grupo ainda mais perto do sucesso de massa. O New Order encontrava-se mais refinado do que nunca em seu terceiro álbum. Canções roqueiras de melodias trabalhadas e cativantes ("Sooner Than You Think", "Love Vigilantes") se alternavam a faixas experimentais, misturando eletrônica e rock ("The Perfect Kiss", "Subculture").


O mesmo álbum incluiria a magnífica "Elegia", climático instrumental de rara beleza. A capa do disco seria motivo de mais surpresa, pois trazia - pela primeira vez – fotos dos membros do grupo, em super close-up. Low-Life seria o primeiro disco do New Order a sair no Brasil, com dois anos de atraso.

O grupo lançaria também versões diferentes em single de "The Perfect Kiss" (esta com o dobro da duração da gravação original) e "Subculture" (incluindo vários remixes diferentes, em uma época na qual esse expediente ainda não era comum).


Outros dois singles mirando as pistas de dança, "Shellshock" - que estourou nos EUA ao ser incluída na trilha do filme A Garota de Rosa-Shocking - e "State of The Nation" completariam a prolífica fase do grupo nos estúdios. No fim de 1986, eles soltariam o quarto álbum, Brotherhood.


Explicitamente dividido em uma metade roqueira e outra eletrônica, o disco trazia canções excelentes como "Paradise", "As It Is When It Was" e "Way of Life", a dançante "Angel Dust" e as climáticas "Every Little Counts" e "All Day Long". Também inclusa no disco estava "Bizarre Love Triangle", outro sucesso mundial. Na época do lançamento de Brotherhood, a crítica inglesa o comparou desfavoravelmente a Low-Life, e surgiram rumores que o álbum teria sido completado e lançado às pressas para cobrir a periclitante situação financeira da Factory.

Verdade ou não, o NO seguiu firme e forte, enigmático como sempre e mais dançante do que nunca. Conseguiram um novo hit com o single "True Faith" (produzido e composto em colaboração com Stephen Hague, parceiro dos Pet Shop Boys) e em 1987 finalmente atingiram seu primeiro disco de platina nos EUA (um milhão de cópias vendidas), com as vendas da compilação Substance.


Originalmente um vinil duplo, o disco coleta em suas 12 faixas os lados-A dos singles da banda – ou seja, canções que nunca haviam aparecido em seus álbuns oficiais. O CD também é duplo e traz de bônus os respectivos lados-B dos compactos, num total de 24 faixas. A evolução do som do grupo fica clara ao ouvirmos a coletânea - do rock cru e dissonante de "Ceremony" ao límpido pop eletrônico de "True Faith", seis anos de frutífera produção rolaram.


A versão CD é indispensável, visto que os lados-B do grupo passam longe de serem apenas sobras de estúdio: canções excepcionais como "Procession" (1982), "The Beach" (1983) e "1963" (1987, relançada como single em uma nova versão em 1994) provam isso.


Uma longa turnê pelos EUA, com o Echo & The Bunnymen, foi o meio encontrado pelo New Order para ajudar na divulgação de Substance. Àquela altura, o grupo já era o patrono indiscutível do rock indie inglês, abraçando alegremente o superestrelato que tinha sido recusado pelos Smiths.


Ao vivo, o New Order se encontrava mais entrosado e à vontade que nunca, como pôde ser comprovado pelos brasileiros (o grupo esteve por aqui no final de 1988). O quinto álbum já estava todo gravado quando o NO tocou no Brasil, e foi precedido pelo lançamento de "Blue Monday'88", versão renovada da música de 1983, remixada por Quincy Jones.

Technique saiu no começo de 1989 e logo foi aclamado pelos ingleses como o melhor trabalho do grupo. Muito influenciados pelo estouro da acid house e por suas passagens pela cena clubber de Ibiza (Espanha), Bernard, Hooky, Morris e Gillian dispararam petardos direto para as pistas ("Fine Time", "Mr.Disco", "Round and Round") e reuniram uma bela coleção de canções acústicas ("All The Way", "Love Less", "Run"). O padrão de divulgação para o disco seguiu como sempre: uma longa turnê, mais singles ("Round and Round" e "Run" foram lançados) e passagens ocasionais pelo Hacienda, que fervia no auge da acid.


Apesar do grupo estar fazendo mais sucesso do que nunca, eles estavam precisando de novos horizontes. Isso gerou rumores sobre a iminente dissolução do grupo, que já haviam surgido antes do lançamento de Technique. Bernard Sumner já estava dando corda total a sua nova parceria com Johnny Marr (ex-Smiths): o duo Electronic.




Enquanto Sumner e Marr compunham, discretamente, as músicas que estariam em seu primeiro álbum, o New Order reuniu forças com a seleção inglesa de futebol para gravar o single "World in Motion", que serviu de tema oficial para o time britânico na Copa de 1990. O compacto foi o maior sucesso da carreira da banda (e a única vez em que chegaram ao número 1 da parada mainstream).

Logo após "World in Motion", o New Order resolveu se separar, sem dissolver oficialmente o grupo. Foi cada um para um canto. Bernard e Marr lançaram o disco epônimo do Electronic, em 1991, com participação dos Pet Shop Boys e fazendo um som bem próximo do New Order de Technique.


Peter Hook formou o grupo Revenge, cantando e tocando baixo. A banda lançou também em 1991 o disco One True Passion (eles chegaram a tocar no Brasil, em 1993) - e que igualmente não se distanciava muito da sonoridade do NO, com um drive mais roqueiro. Gilian e Stephen assumiram o irônico pseudônimo The Other Two, soltando em 91 o álbum Tasty Fish e, em 93, Selfish. A dupla voltou-se para um lado eletrônico mais radical, mirando as pistas.

Afinal, em meados de 1992, o New Order se reuniu para registrar seu sexto LP. Por ironia do destino, enquanto o grupo gravava, junto a Stephen Hague, o que viria a ser o álbum Republic, a gravadora Factory quebrou - vitimada por um estilo "generoso" de administração, múltiplos prejuízos e, em grande parte, pelo hiato nos lançamentos do New Order, eternos campeões de vendas do selo. Não chegou a ser problema para o grupo arranjar uma nova gravadora; o selo London venceu a disputa pelo passe da banda e em abril de 1993 saía "Regret", o primeiro single do New Order fora da Factory.


Republic logo se seguiu e o mundo provou que estava com saudade do grupo: o disco consagrou-se como o maior hit internacional da banda. A boa conjunção eletrônica + guitarras de Technique se repetiu, com uma maior ênfase nas programações (em faixas como "World", "Everyone Everywhere" e "Spooky"). Logo após uma turnê pela Europa e EUA, mais uma vez cada qual voltou para seu canto. Novos rumores de conflitos internos deixaram os fãs aflitos, enquanto o grupo entrava em um longo período de férias.

Bernard seguiu com o Electronic, que se provou com o passar do anos ser tão "low profile" quanto o New Order. Depois do primeiro álbum, em 1991, o grupo só viria a lançar o segundo em 1996: Raise the Pressure, com participação do ex-Kraftwerk Karl Bartos. Um terceiro disco, Twisted Tenderness, chegaria às lojas em 99.


O Revenge foi capengando - detonado pela crítica - até 1996, quando Peter Hook formou o Monaco. De modo nada surpreendente, o disco Music For Pleasure também se inspirava muito no New Order.


Gilian e Morris casaram-se oficialmente em 1994 (consta que nem Bernard nem Hook foram convidados à cerimônia) e seguiram, como The Other Two, produzindo música para programas da TV inglesa.


Enquanto isso, o front do New Order viu o lançamento de duas coletâneas: The Best of..., em 1994 - com um repertório bem parecido com o de Substance - e The Rest of..., contendo remixes e versões alternativas.

Em 1998 o grupo afinal se reuniu para as primeiras apresentações ao vivo, incluindo o famoso show no reveillon de 1999 em Londres. Em 2000, saiu a primeira gravação inédita do New Order desde 93: "Brutal", incluída na trilha sonora do filme A Praia, de Danny Boyle (Trainspotting). E em 2001, a banda apresentou-se no Festival de Reading, com o ex-Smashing Pumpkins Billy Corgan (que nunca escondeu sua admiração pelo New Order) na guitarra.


Leia também JOY DIVISION BIO

OP em RP #38

 
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